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Naufrágio

A lua chorou sobre a água
o seu pranto luminoso
qual narciso em desencanto
solitário e vaidoso;
neste, um refletir exíguo
da sua palidez estanque
risca o fluido mar ambíguo
pobre em cor e exuberante

O negro e hídrico tapete
ecoa o falsete lunar
ondas de som e de sal
que se sente ressoar
como um enxágue de cal
a alisar a fina areia
lágrima de lua e nau
rasgando o mar que clareia

Clarrissa Yemisi / Matheus Gondim
30/03/2008

A consciência do passado é sempre penosa, sejam bons ou ruins os fatos soterrados pela neblina do tempo. Ocorre que, pela simples razão de que ficaram para trás, num recanto empoeirado de saudade ou repúdio, embora cada vez mais longínquos, sussuram, insistentemente, a proximidade do fim. São migalhas de vida que se deixa pelo caminho para sempre ermo, becos em que jamais se pisa uma segunda vez, bosques estéreis que os sopros da memória teimam em revirar e a que emprestam vida sem alma.

É bem verdade que existe uma tal saudade menos dolente que outras, a qual transborda quando não ansiamos por reviver uma vírgula qualquer do passado, mas cujo traçado não nos suscita arrependimento. Se há uma pretensa vertente da saudade que tenha o condão de nos fazer sorrir enquanto indagamos os rastros do tempo é, precisamente, a que acabo de mencionar. No entanto, agonize sob os escombros do destino oportunidade ou ‘felicidade’ perdida, cada segundo é tempo que não volta. É contagem regressiva para o abismo da velhice fria e seca, mesmo que seja em cores e em família. A velhice é um fardo por si própria, mas também pelo peso que as ferragens de uma vida in memoriam depositam nos ombros frágeis e doentes. Não há eufemismo mais agressivo do que “melhor idade”, expressão politicamente correta, mas refutada quando dos finalmentes (finalmentes mesmo). Ou você, caro leitor desocupado, já ouviu alguém dizer por aí que fulano morreu de “melhor idade”? Seria, no mínimo, politicamente incorreto. (rs)

Entrementes, toda conotação negativa só faz sentido quando confrontada com o seu oposto. Visto que, em se tratando de vida, não há frente e verso, mas só frente com pinta de verso (alternativas há em hipótese, mas não de fato), simplesmente não há razões para reclamações ou cara feia. Resta-nos o colo amigo da resignação, da aceitação da vida em toda sua plenitude.

A consciência do passado é, sim, penosa. A do futuro, angustiante ou extasiante. E nós vivemos, precisamente de passado e de futuro. O presente é tempo de sensações irracionais, jamais de impressões, porquanto estas são feixes de luz ou sombra projetadas num outro tempo que paira, em volta, denso e torto. Este presente, tão logo exista para a mente, já é anterior em frações de tempo. Presente, enquanto intervalo, não pode ser presente, posto que, findo o lapso, o início jaz sob a lápide do tempo pretérito. Presente só o é, de fato, pontualmente, e o ponto está para o espaço, em realidade, assim como o presente para o tempo.

Neste mundo de máscaras e desilusões, em que se mostra os dentes perante espelhos enquanto o sapato espreme os dedos, há que se pensar o suficiente, fingir muito e escrever pouco.

Escrever pouco, sobretudo.

Admiro aqueles que sabem focalizar algo na vida. E o faço pela mesma razão pela qual uma criança admira um mágico de circo: simplesmente por não ter noção de como ele consegue fazer o que faz.

O minúsculo estilhaço de mundo posto ao alcance da percepção individual é suficiente para desnortear o espírito de razoável ou generosa sensibilidade. Noutras palavras, o apocalipse da existência – seja ela real ou irreal – é a perdição do homem sensível.

Quando me refiro à sensibilidade, quero significar, além da faculdade de sentir com a alma, a ânsia do conhecimento do que há em volta, daquilo que concorre para o espetáculo da existência dinâmica. Não fosse o mundo tão exagerado em sua multiplicidade, falar em foco seria infinitamente mais fácil.

Acontece que, enquanto uns dedicam a vida a compreender o modo de vida das formigas, outros escavacam tumbas a procura de um passado mudo. No instante em que se fotografa um pássaro raro nos confins de uma floresta, estufam-se as veias do pescoço do engravatado que berra nãoseioquê na bolsa de valores. Ao mesmo tempo em que o som agudo de um violino estremece os miolos de ouvintes atentos, galáxias entrelaçam-se e estraçalham-se para o vazio. Cristais de neve dançam ao encontro do chão, e os dedos da terra que os ampara também seguram o magma. O mar não sabe do computador, que não sabe da semente, que não sabe do número, que não sabe do homem, que não sabe de nada.

Os livros na estante parecem querere falar para contradizerem-se. Eles que são fragmentos de mundo encadernados. Eles que são tantos que não se pode contar numa vida. E diversos de uma maneira que não se pode conceber, quase tanto quanto o complexo de possibilidades do existir. É possível que todos tenham sido escritos por pessoas que estabeleceram um foco na vida, que não se deixaram soterrar pela avalanche do universo traiçoeiro.

É bem provável que a história seja feita pelos que sabem ajustar o foco do pensar e do agir, embora os ‘desfocados’ somente possam ser recriminados se, ao abestalharem-se diante das coisas, limitarem-se a gozar a infertilidade da contemplação.

Vai ver que tudo é, de fato, uma questão de foco, como reza o lema dos incansáveis concurseiros. Vai ver que eu deveria estar estudando direito financeiro, neste exato momento.

O amor somente cogita em erguer bandeira branca na implosão do desespero. Quando até o silêncio discorda e contradiz.

Poucas coisas na vida são tão desconcertantes quanto um arranhar-se de olhares desconhecidos. Sempre dura o suficiente para nos fazer sentir vulneráveis, inseguros e com todos os defeitos em evidência, ao mesmo tempo em que indagamos o outro no escuro. Nestas circunstâncias age-se como em resposta a uma afronta, a um desrespeito, em retaliação a um atentado à privacidade que se quer incólume.

Com os olhos engatilhados e munidos de preconceitos, descarregamos impressões forjadas que, não raro, têm o poder de apontar rumos de relações em potencial. Acontece que o primeiro embate de olhares é sempre um erguer e soprar de cartas simultâneo. Incômodo e perturbador, atua em sentido contrário ao intuito original, comumente repelindo ou adiando aproximações.

A ameaça do olhar seria menos aterrorizante não fosse a absoluta ignorância da arma que se empunha ou diante da qual costuma-se fraquejar. Soubessem, as mentes que se espreitam, o que sussuram as sinapses, seus corpos não se poriam em estado de tenso e fingido alerta; os olhos, incautos, não apelariam a alvos aleatórios e a sensação de desconforto seria incomensuravelmente menor, porque estariam a par da situação.

Não haveria graça alguma, em suma.

Uma troca de olhares é exercício de sensibilidade. E o mistério do outro, sua perdição.

Entre parêntesis

Amor é fogo que arde
e incinera a si próprio.

Desenvolvi amor pela vida para obstruir as artérias do ódio que nunca tive, mas que bem poderia ter tido, pois, como é sabido, ambos ódio e amor entreolham-se tão próximos que não se pode afirmar onde terminam os cílios de um e começam os do outro. Tusso minha sina num estertorar de tísico e escarro o destino que se diz meu, enquanto arrasta-me por rédeas curtas sobre o asfalto livre. Desfaço-me em curvas e sorrisos sinceros quando renasço para fora, mas nunca retiro-me de todo e, enquanto aceno com a mão tímida, esqueço a outra na segurança do bolso, como toda a gente o faz. E não me importo de ser incompreendida. Não mais.

O bom da vida é haver analgésicos lícitos…

… como o pôr do sol.

De alma para luz.

Que razão têm as estrelas em brilhar para todos e para ninguém a mesma luz? Que razão têm os cometas em rasgarem a eternidade em órbita a perpassar os mundos visíveis e invisíveis? Que razão têm a poeira, os gases e quaisquer outros elementos ou substâncias em combinarem-se para dar forma à qualquer coisa por que clame o acaso? Há razão na engenharia dos anéis de saturno ou na voracidade do buraco negro? Qual a razão do espetáculo das supernovas?

Razão nenhuma. Porque razão é coisa altamente inferior e desnecessária à continuidade do cosmo, e ainda, muitas vezes, prejudicial à interação harmônica entre seres vivos e mortos. Aperfeiçoa-se sem que se possa afirmar sua evolução ou involução, se considerados o bem e o mal que desencadeia por intermédio da única espécie que, acredita-se, a possui. De que me vale conhecer de mim e do alheio duvidosos e raros prós e incontáveis contras? Para entender o mundo e o ser. Sim. E daí? Não há razão em saber do mundo e do ser. Não há razão em saber. Não há razão em ser. A ignorância é a virtude e o conhecimento, o câncer.

Por isso fecho o livro sem marcar a página, apago todas as luzes ao alcance e procuro as estrelas todas, para conversar. De alma para luz, em paz.

Percebo as coisas e tudo é triste. O lençol fino que esperneia no varal úmido, a janela sóbria de olhos entreabertos, o muro amputado que mente ao morno lar sobre o frio inóspito da rua avessa, o mato pouco verde que roga ao vento surdo a incerteza da liberdade para além da terra frágil…

As telhas, entulhadas em certa ordem, só elas são menos tristes, porque, escancaradas ao céu, gozam as estrelas.

Contemplo o mar desde as gotas que me alcançam os pés até a finitude imensuravelmente reta que esbarra no céu. Adiante, erquem-se robustos arrecifes que cruzam a eternidade aos socos de brutas ondas coroadas de branco sal. E assim, a cada rugido violento, sendo já outros e jamais os mesmos, para sempre hostis ao incansável gigante diminuído em liberdade, logram retardar as horas moribundas, ora distraídos a gozar a beleza dos ramalhetes efêmeros de rala espuma em salto, ora a lacrimejar bolhas de tédio em represália à monotonia do ser…

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