Nunca compreendi (nem jamais convenci a mim mesma, apesar de haver exaustivamente tentado) a razão de ser o ato através do qual se dá continuidade à vida considerado pelo Cristianismo um pecado. Pra ser sincera, não posso conceber paradoxo maior do que este: a veemente rejeição do que origina algo consagrado como o Bem maior. E ser tido, além disso, como baixeza humana, como manifestação aberrante do instinto mais vil.
Ora, então por que optou o Mentor dessa forma de procriação justamente por ela e não por outra qualquer? Por que não se faz bebezinhos fofinhos tomando uma poção mágica ou beijando ou estimulando a multiplicação de células como um broto (rsrs)? Por que não os trazem pendurados nos longos bicos das cegonhas mesmo ou de qualquer outra ave que suporte seus quilinhos? Ou melhor, por que os anjos não colocam os meninos nos ventres das mulheres e pronto? Por quê? Por queeê?
Estranhos esses métodos? Absurdos? Estúpidos, até? Talvez. Mas são todos mecanismos pudicos e limpinhos. Muito pior é escolher um ato abjeto, e que não se consume pra dar vida material ao seu filho.. o que até hoje não é nada fácil de fazer entrar na cabeça de uma simples criatura humana… Pra que tanta complicação, minha Nossa Senhora? E por falar em Nossa Senhora.. imagine o que a pobrezinha não deve ter passado na época pra explicar o ocorrido? E o coitado do José, pra entender e aceitar sem pensar “bobagem”?
Seria Deus autor de semelhante contradição? Seria Ele capaz de condenar a humanidade a pecar eternamente apenas pelo fato de dar seguimento ao Seu projeto primevo?? Criar o instinto e fazê-lo poderoso com a finalidade de ser eterna tentação para o mau caminho??
Parece-me criação puramente humana, egoísta, anti-natural. Tal qual o foi a condenação do riso. Tal é a condenação do amor.
…
Ou não.
Talvez seja esta a resposta:
”Mas, então, aquele que (…) tenha percebido a eternidade da vida que provém do querer essencial, e que tenha aprendido a vida intimamente na sua natureza autêntica, (…) perceberá que o mal original é existir (…), existir é o pecado original, já que a existência, saindo da vontade que por excelência é livre, é o fruto da liberdade; dar-se-á conta de que o ato gerador, foco do querer-viver, é o foco do mal e do pecado; e que propagar a existência é propagar o mal, persistir no crime; que ceder ao amor é sucumbir à astúcia da natureza que instiga os indivíduos para atirá-los em profusão, sem fim, no seu crisol devorador, que perpetua a espécie ao preço de sua infelicidade. Ele saberá que querer reproduzir-se é fazer-se cúmlice do monstro e consagrar deliberadamente uma infinidade de outros seres à miséria que não ignoramos ser a nossa. Então ele já não se espantará com o sentimento de vergonha que acompanha e segue o ato gerador. Compreenderá por que a alegria da procriação é um pecado. Alcancará o sentido profundo do mito da queda que liga necessariamente ao amor carnal a morte, como sua punição, e que faz da maça de Eva o fruto proibido da árvore do conhecimento, para que alquele que cometa o ato vergonhoso saiba do que se trata quanto à origem e à propagação da espécie.“
(!)
Introdução da Metafísica do Amor e Metafísica da Morte, Shopenhauer