Assistir a um grande espetáculo teatral deixa-me não menos inquieta do que exultante. Sobretudo quando a peça é filha autêntica dessa Paraíba de tantos talentos e percalços no caminho dos que fazem teatro.
Não que eu seja bairrista ao ponto de considerar a “naturalidade” da montagem um critério idôneo para avaliar sua qualidade, mas é, no mínimo, imensamente gratificante contemplar no palco jovens e experientes atores numa excelente encenação paraibana desde o texto base, perpassando a eficiente adaptação para teatro, a trilha sonora, o figurino, cenário e tudo o mais até a sóbria direção do mestre Tarcísio Pereira.
A inquietude que me fustiga e, vez por outra, negligente, deixa escapar uma lágrima tímida que engatinha face abaixo na escuridão da platéia, deve-se ao desejo - saciável, saliente-se - de ver proliferarem, nesse Estado, uma infinidade de boas produções que dignifiquem o teatro aos olhos do próprio paraibano, inicialmente.
A recente montagem da Fantástica Peregrinação do Coronel Severino Luciano Atrás de um Rabo de Saia, baseado em livro quase homônimo do deputado Fabiano Lucena (o nome do livro ainda traz mais um dúzia de palavras) é um desses espetáculos a que dá gosto assistir. Admito que, quando soube quem era autor do livro adaptado, cometi a injustiça - instintiva - de despertar o preconceito cultural que procuro manter adormecido. Mas isto é justificável pela legenda que abriga o deputado e, sobremuitomaisdoquetudo, por seus conchavos, origens e amizades políticas, que não vêm ao caso.. (Diz-me com quem andas blá, blá, blá…)
O espetáculo, no entanto, não apenas despiu-me, em partes, do preconceito, mas encantou-me. E o fez mais pela beleza idílica do cenário de Yon Pontes e sua dinamicidade e versatilidade, pela encenação precisa e sóbria do elenco (do Zé Pinel inclusive, que de pinel só tem a alcunha e os trejeitos..), pela perfeita trilha sonora de Eli-Eri Moura, pela irretocável execução ao piano, ao vivo, de Marcílio Onofre, pela impecável impostação de vozes do coro, pelos recursos carregados de simbologia que saltaram aos olhos, principalmente, na cena da travessia do rio São Francisco, do que pela simplicidade irreal, porém bela, do texto original. Por falar em cenário, que remete a figurino… gostaria muito de saber quanto os patrocinadores desembolsaram para bancar a produção, pois pelo visto, não economizaram. E não era para menos. Para isso também servem as excelentes infuências e um razoável patrimônio econômico.
Digo que despiu-me, parcialmente, do preconceito porque, afinal, estava diante de uma manifestação de arte cênica e o meu preconceito recaia sobre o texto (rs) de Fabiano. Ao final do espetáculo, resolvi comprar o livro para alteral ou ratificar meu pré-conceito desfavorával… =D
Com ilustrações de nada mais nada menos do que Flávio Tavaresssss, a obra, dividida em duas partes, uma em prosa e outra em poesia, de acabamento e qualidade material dignas de um deputado, acondicionada numa caixinha rústica, acompanha CD com a parte em versos recitada por nada mais nada menos do que Oliveira de Panelas.
Li somente a parte poética, até o momento e, finalmente, dei o braço a torcer. Não obstante alguns deslizes métricos que prejudicam a musicalidade dos versos, a trama tem um desenrolar fluido e leve, pelas sinuosidades da qual somos facilmente conduzidos ao desfecho. O autor verseja com certa facilidade, sem forçar o encaixe das palavras, a rima, a sequência dos versos, que formam um todo coeso e bem estruturado.
Enfim, bom livro (pelo menos a metade que li, rs) e boa peça. Desisti de contar detalhes do espetáculo porque, a esta altura do campeonato, sei que poucos terão fôlego para chegar à presente linha do meu texto.. rsrs.
Fico feliz por estar presente nesse momento…
Vale ressaltar que a autoria desse livro por Fabiano Lucena é extremamente questionável, vc não cometeu nenhuma injustiça! Sei de fontes muito seguras (uma pessoa que o entrevistou para um jornal de grande circulação) que ele, ao dar a entrevista, não sabia nem o enredo da história, que o livro era feito em redondilhas maiores (se não me engano), pior ainda, nem sabia o que era redondilha maior e que escrever em redondilha é típico dos cordelistas e outras coisas mais…
Infelizmente, parece que de “regional” o nosso deputado só conhece bem as práticas coronelistas, de por exemplo, pagar a um poeta sem voz nem vez para que, Dr. Fabiano,com seu poder possa comprar até o dom da literatura.
uahauhahauhuahuahuahuahauhauhauhauhuhauauhauhu
Suspeitei desde o princípio…
Se sua fonte é, de fato, segura, não há o que questionar senão a integridade do deputado. Questioná-la, obviamente, no tempo passado, isto é, se ele foi, algum dia íntegro, já que, tendo se prestado a esse “comércio” autoral, outra incerteza não resta.
Por outro lado, não somente a compra do poeta é censurável, mas igualmente a venda. Não duvido de que esse tal cordelista tenha, ao contrário do que vc disse, voz e vez. Duvido, sim, da sua vergonha na cara e de seu compromisso com a arte e com o artista.
Quer dizer que ele passou esse vexame todo quando entrevistado sobre o livro??? hauhauahuahauhauhauhaua
Muito engraçado…
Redondilha maior é um o nome rebuscado do verso de 7 sílabas métricas e é o mais recorrente e adequado ao estilo cordel, sim. Se ele desconhece isso.. pelamordedeus. Ele deveria, ao menos, conhecer o produto que adquire.
Finalmente, comprar o “dom da literatura” me parece ‘meio’ e não ‘fim’. Este, evidentemente, deve ter nuances políticas.
Agora se sua fonte não for, inquestionavelmente, segura, relativize tudo que acabei de escrever.
*Seus comentários instigantes são sempre bem-vindos, moça.
Clarrissa:
Eu gostei da história, mas sempre suspeitei que não fosse de autoria do Deputado.
Até nisso eles querem levar vantagem! ehheheh
Grande beijo
Eu não suspeitei que não fosse dele, afinal, os políticos, bons ou maus, também poder ter talento.. Duvidei, sim, da qualidade… rsrs.
Que bom que vc reapareceu, Sr. Adonis. Adicionei você no msn.. apareceu por aí?
Abraço
Acho que não cabe falar de arte diante a miséria que muita gente vive por ai, ainda mais em compromisso com ela. Muitos dos cordelistas vivem na penúria ou quase nela (não sei se foi o caso, e nem posso provar que o “caso” em si existiu), mas acho que ninguém pode censurar aquele que faz determinadas coisas por suas condições. Eu quero é saber quem, ao ver que pode botar um pouco mais de comida na mesa, pagar a conta de luz, pegar o ônibus ao invés de atravessar a cidade de bicicleta, vai ficar guardando cordel quando sabe que não é apadrinhado de seu ninguém pra publicar por ai e que daqui a um ano o cordelzinho vai estar no mesmo lugar onde jogaram essa tal de “dignidade” que todo mundo enche a boca pra falar: empoeirada, maltrapilha e esquecida num canto.
Por mais enobrecedora e bonita que seja, a arte é supérflua e , afinal de contas, é pra ser vendida de todo jeito, seja na corda da feira, seja numa livraria, ou seja pra o primeiro que te oferece um dinheiro quando ninguém iria te dar nada mesmo…
Quem passa necessidade não tem contas pra prestar com a arte não, já que a arte não tem nada a ver com suas contas no fim do mês mesmo! Agora quem vive do “supérfluo” (cmo o digníssimo Dr. Fabiano), tem condições dignas (não falo em ser um superherói e morrer por uma causa, eu falo em ser humano e ter suas necessidades básicas mesmo) e ainda mais é político, esse sim tem muita conta a prestar.
Clarrissa, que belíssima surpresa. Eu e Rita também acabamos com nossos profiles e deixamos apenas os de moderadores das comunidades. Orkut chega um ponto que se torna um saco. Agora estou curtindo demais os blgos. Fico feliz que tenhamos estabelecido novo contato, pois tanto eu quanto Rita somos fãs de sua poesia. Vou linkar seu belo blog ao meu ‘Gritos Verticais’ e a esse nosso em wordpress ['O Poema Nosso de Cada Dia'], que é para não perdermos mais o contato. Grande abraço, Poetisa”.
Não acredito que Seu Fabiano tenha solicitado préstimos poéticos a um poeta pequeno. Até porque não é do seu feitio auxiliar os desvalidos economicamente fora do periodo eleitoral, a não ser que confiasse em seu trabalho e para tal era preciso que tivesse certa credibilidade. Aliás, se esse cordelista tivesse guardado esses versos e essa proposta indescente do depudado para a época da eleição, era até possível valer-se do apoio da oposição para publicá-los.
Assim sendo, é bem provável que o vendedor dos versos tivesse, sim, condições de, ao menos, botar comida na mesa, de levar uma vida simples, porém digna, porque, afinal de contas, o mercado de cordel, não sem contra-tempos no percurso, tem crescido bastante com a valorização do gênero e da cultura popular como um todo em âmbito nacional. A não ser que o tal poeta tivesse pretensões mais ambiciosas enquanto consumidor do que enquanto artista.
Agora se o verdadeiro autor viver na miséria, tudo é justicável, não? Toda atitude ilícita é acobertada por uma excludente de punibilidade quando cometida em estado de necessidade..rs. Só que em muitas situações costumas-se recorrer aos meios e modos mais fáceis do que enveredar pelo entravado caminho da carreira artística, arriscando os árduos primeiros passos.
Apesar de não ser ilícita, é desonesta semelhante negociação. E se for verdade que o homem íntegro do sertão, pátria original dos cordelistas, alça a retidão moral a um posto privilegiado dentre os valores, deve ser preferível viver conforme suas possibilidades, mas de consciência limpa e cabeça erguida.
Não sei, enfim, as razões que levaram o poeta a desfazer-se de sua obra, se é que o fez, mas isso é problema dele, literalmente. É lamentável, de qualquer modo.
E arte não é supérfulo nem para quem não vive dela, essa menina. O verdadeiro artista, bem como os apreciadores em geral, sabem-no, por sentí-lo. Talvez seja o que resta da humanidade do homem nesse tempo apocalíptico.. mas aí já são outros quinhentos.. mais outros tantos dedos de prosa…
(ai meu deus! eu não acredito! perdi meu comentario!!!! rs vamos lá tentar de novo!)
Menina, começo pelo fim do seu texto. Cheguei à ultima palavra com aquela sensação de prazer que só uma boa leitura provoca. Sua escrita é linda e o estilo instigante.
Mas não vou comentar ‘este” texto. Li muito. Aliás, estou te lendo desde ontem. E o mergulho me fez um bem danado. Eita gente boa este povo da Paraiba, viu? rs…
Foi um prazerzão estar aqui, moça! um beijo.
PS. o nome do blog me trouxe uma saudade danada do nosso Miolo de Pote - um blog de crônicas, criado e mantido por um conterrâneo seu em 2006. Foi quando aprendi que miolos de potes podem ser surpreendentes recheios!
haaa.
Pois eu sou preconceituoso sim. e não saio de casa pra ver qq coisa em que esse clãzinho esteja com os dedos no meio. Por aqui me chamam de radical, expremista e até de velho ranzinza (vê se pode?) .
Ahh, fico puto quando vc me obriga a ir ao dicionário. vocabulário não é capacidade argumentativa!!!
“Agora se o verdadeiro autor viver na miséria, tudo é justicável, não?”
ponha vírgula depois do “agora” se quiser ser tão primorosa, oras.
Mas tu escreve bem pra kct. Acho que vou te pagar pra escrever no meu blog. assim o pai de Cazuza, que era dono de gravadora, fazia. nada demais, todo mundo ganha. o cara que escreve recebe seu dinheiro pra sobreviver e o outro alimenta seu ego, sua urna, bolsos e apadrinhados.
enfim, vou ali. ninguém tá me pagando pra eu escrever aqui, então tchau. cheiros
Agora fiquei curioso para ver… Que tal pedir para que eles venham para Ribeirão?
Sinceramente, não conheço a peça, tampouco o livro e menos ainda o cordelista anônimo supostamente plagiado pelo deputado, que, graças a Deus, também não conheço pessoalmente.
Mas sinceramente acho muito pouco provável que Fabiano Lucena, Ronaldo Cunha Lima e demais gângsters aristocráticos que fazem o cenário político-institucional paraibano tenham algum êxito quando ousam se aventurar artisticamente. Muito pelo contrário. Ou como diria o baiano Sérgio Sampaio - pouco depois de descobrir ninguém menos que Raulzito Seixas e pouco antes de morrer abandonado no ostracismo absoluto, deixando pérolas como Eu quero é botar meu bloco na rua -, “a arte não importa; o que importa é o artista”.
Por isso é que um livreto de cordel saído das mãos de um tradicional cordelista nordestino traz consigo toda a representatividade do significado histórico-antropológico-sociológico-cultural da poesia de cordel. Diferente demais quando quem faz a pseudo-poesia nordestina é um burguesão que mal pisa o território paraibano e aprendeu métrica estudando em livros portugueses, banhado a uísque e vinho pago com dinheiro público. Aqui, a poesia de cordel é completamente artificial.
Quanto ao homem com mais medo do STF no momento… Bom, o cara pode até desenvolver técnicas para decorar poemas e informações sobre outro poeta - este sim dotado de criatividade incomensurável - quando Augusto dos Anjos nasceu, o nome da bactéria que o matou, o nome da mãe dele. Isso mostra um mínimo de cérebro, mas até onde eu sei, isso nunca foi arte. A propósito foi assim, decorando, que eu aprendi a tabuada, bicho. Isso não é arte. E, aqui pra nós, muito menos o são aqueles poeminhas de segunda categoria que ele faz, juntando riminhas paupérrimas, mão e coração, desejo e beijo, amar e mar, dor e amor… Muito mais artística, para mim, foi a tentativa de homicídio intentada pelo poeta contra Burity. Ficam as dúvidas, como recomenda a proposta de plurissignificação da cartilha das belas artes… Questão política? Loucura? Surto de Nero? Idade avançada? Alto teor alcoólico nas veias? Outra droga, ilícita? Coisa de pai agredido contra a heterossexualidade de sua prole? Algum dia saberemos…
Já quanto ao Fabiano Lucena, desconfio absolutamente da sua capacidade, simplesmente pela sua inexperiência e seu desengajamento com o movimento cultural, mas desconfio muito mais ainda da sua integridade moral. Diz-me com quem andas que eu direi quem és…
A verdade é que já não dá mais pra insistir na fórmula da reprodução, feito fazem esses pobres coitados intelctualóides, copiando descaradamente o que eetivamente não lhes pertence, ainda que paguem por tanto. Importante mesmo é produzir. Qual a graça de fazer o que já está feito? Sinceramente, estou mesmo é com Bandeira, “farto do lirismo-funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao senhor diretor”.
Sim…
Gostei da elegância do blog e do título também.
Aliás, acho muito elegante o jeito como você escreve. Uma Clarrissa Lispector mais menininha?…
Só acho que falta a postura artística. Depois eu te explico com mais calma o que é que eu entendo por postura artística.
Beijão, boyzinha.
Moça bonita,
como a senhorita esta sem orkut e nao a vi mais vagando pelo msn, vim me desculpar por aqui por não ter comparecido na quinta-feira.
Desculpas. Espero que possamos encontrarmo-nos outro dia. UM abração!