Confesso que não me sinto a vontade para desejar feliz natal nem aos entes mais próximos. Não se assustem com a heresia, cada vez mais instintiva e presente em meus pensamentos desregrados. Não se trata de negar importância ao evento, que traz, em essência, um válido significado altruísta. Acontece que coisa nenhuma há cuja essência permaneça intacta. Tudo corrompe e é corrompido. Viver, enquanto matéria, é degenerar-se.
O Natal hodierno não passa de uma festa como qualquer outra, em que se inaugura uma roupa nova para exibir-se aos convidados, brinda-se com a família em poses felizes para capturar fotos para o orkut, empanturra-se de Peru com arroz com passas e vinho e queijo do reino, liga-se para alguns gatos pingados de amigos e outros familiares isolados, dá-se presentes quaisquer a qualquer um quase que por obrigação e ainda faz-se cara feia diante do presente ganho no amigo secreto, deseja-se paz, saúde, harmonia e blá, blá, até que chega o dia 25, feriado, e o nome ”feriado” se sobrepõe ao “natal” e tudo já volta à bruta normalidade de sempre, sem votos de felicidades e dias vindouros melhores que o de ontem.
Tudo passa e retorna e passa e retorna e passa novamente e retorna uma outra vez e assim sucessivamente. E vira rotina, habitual, previsível. O bicho homem achou por bem criar datas específicas para se desejar o bem ao outro, o que não é má idéia, não fosse a cara de estranhamento que se entorta diante de nós se desejamos paz, saúde e felicidade para qualquer um num dia qualquer do ano. Assim, deseja-se feliz natal mais como uma formalidade, por educação, como uma palavrinha mágica feito ”bom dia” ou “por favor” do que por vontade própria, simplesmente como quem diz “passe-me a farofa, por favor”. Mais por dever cristão, moral, de gentileza do que como manifestação de amor ao próximo.
Desejar feliz natal constrange-me por isso: porque sinto-me numa situação forjada, num espetáculo de aparências. Prefiro fazer votos de boa ventura no dia de seu ninguém, sem coação de data comemorativa nenhuma, sem compromisso com o calendário. Mesmo assim eu não fujo à regra e desejo “feliz natal” a torto e a direito, embora com o coração na mão. Esforçando-me por ser verdadeira e não cair na trivialidadedos votos automatizados, bem como por sorver toda a sinceridade dos votos alheios.
Aproveitando o ensejo, desejo a você, caríssimo corajoso, que lê este miolo de pote com tanta paciência, um Natal verdadeiro e perene, que rompa os grilhões das datas e cujo espirito paire feito neblina, sempre, para além dos tempos.
Para além do tempo.
Eu também prefiro desejar Feliz Ano Novo para pessoas com o olhar movimentando o futuro, como vc.
Muito belo seu poema no orkut!
Um beijo e Feliz Todos Os Dias do Ano de 2008!
Lau
PS. Vc já viu meu blog novo? http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com
Moça bonita, voce fez um retrato fiel do espírito natalino, tao verossimel que chega a me dar medo do natal. Mas como boa menina que sou, visto a minha roupa nova, compor presentes e peço a farofa. Mas os votos são sinceros! (risos)
Como o natal na data deste comentário já passou, desejo um otimo ano novo, que não é diferente do natal. Eu, mais um especime do bicho-homem, tento ser sincera com o mundo e especialmente com os gatos-pingados que escolhi de amigos. =]
Abraço!
Convenções, Clara, convenções…
Vivemos e morremos para elas. Romper com o anti-natural é para poucos.