Aquele instante em que o corpo denuncia uma vontade incontrolável de chorar inquieta-me como uma dúvida. É quando cedem as amarras da sobriedade ou estravaza o cálice da razão e a pobre criatura entrega-se ao instinto, como no princípio. A carne palpita, a face lateja e entorta-se numa expressão que prenuncia o desespero. Os olhos acendem, ardem, encharcam-se num estado deplorável de falso alerta. O último fôlego é disperdiçado na peleja inútil para a preservação da mínima serenidade, invólucro de uma pseudo insensibilidade. A alma esforça-se, a todo custo, por permanecer dissimulada, embora esteja certa de que no passo seguinte desfalecerá sobre o joelhos, apática, ao escorrer da primeira lágrima. Despe-se, então, peça a peça, persona a persona, para render-se no instante seguinte de nudez. A sensação é de impotência, de derrota, de não se saber o que fazer, nem o que se transfigura nem o que o contempla.
De minha parte, padeço do mal de não saber consolar. Talvez por um forte sentimento de empatia, que me faz enxergar as coisas de dentro e não de fora. Não consigo dizer palavras fortalecedoras porque muitas delas seriam hipócritas e, ademais, não resolvem nada. Podem criar uma atmosfera aprazível que dê novas cores à situação, mas nada mudam, em geral. Se têm esse poder, todavia, são mais que bem vindas.
Por essas e outras calo-me e há quem me chame “coração gelado”… rs. Mas o meu coração é líquido.
E goteja.
Você é poesia em prosa. Se eu ouvisse alguém falando que você possui “coração gelado”, diria que tal pessoa sequer possui um.
Lindo moça. Foi bom vê-la e não sei se um dos momentos da nossa conversa tão boa inspirou este belo texto, mas ao lê-lo lembrei-me disto.
Adorei a imagem do coração líquido, remeteu-me à lágrimas, à água, à pureza e especialmente o lindo final: e goteja.