Poucas coisas na vida são tão desconcertantes quanto um arranhar-se de olhares desconhecidos. Sempre dura o suficiente para nos fazer sentir vulneráveis, inseguros e com todos os defeitos em evidência, ao mesmo tempo em que indagamos o outro no escuro. Nestas circunstâncias age-se como em resposta a uma afronta, a um desrespeito, em retaliação a um atentado à privacidade que se quer incólume.
Com os olhos engatilhados e munidos de preconceitos, descarregamos impressões forjadas que, não raro, têm o poder de apontar rumos de relações em potencial. Acontece que o primeiro embate de olhares é sempre um erguer e soprar de cartas simultâneo. Incômodo e perturbador, atua em sentido contrário ao intuito original, comumente repelindo ou adiando aproximações.
A ameaça do olhar seria menos aterrorizante não fosse a absoluta ignorância da arma que se empunha ou diante da qual costuma-se fraquejar. Soubessem, as mentes que se espreitam, o que sussuram as sinapses, seus corpos não se poriam em estado de tenso e fingido alerta; os olhos, incautos, não apelariam a alvos aleatórios e a sensação de desconforto seria incomensuravelmente menor, porque estariam a par da situação.
Não haveria graça alguma, em suma.
Uma troca de olhares é exercício de sensibilidade. E o mistério do outro, sua perdição.
Engraçado uma coisa. Apesar de as relações humanas no mundo global se tornarem cada vez mais intensas, com o avanço da tecnologia, da informática, dos transportes, etc., isso não torna os homens torna mais solidários entre si.
Pelo contrário.
As pessoas foram ensinadas a não se aproximarem umas das outras, porque o outro representa sempre um perigo, um rival em potencial.
Num mundo assim, aproximar-se do outro requer apuro técnico. E essa técnica começa com saber olhar o outro, de forma a deixá-lo se fazer apaixonar e, ao mesmo tempo, se apaixonar pelo outro.
Depois vem o falar, que pressupõe o ouvir; depois, o tocar e, por fim, o abraçar. São as etapas do envolver o outro.
É difícil. A gente não aprende isso. A gente só desaprende.
Engraçado outra coisa. O olho é uma janela (metáfora cara-de-paulatinamente plagiada do belíssimo filme “Janelas da Alma”).
Então é assim que acontece. Pra falar do olho, você tem que observar o olho. Então você olha pra janela, a partir de uma janela. Da janela, se você está dentro, você olha pra fora. Se você está fora, olha pra dentro.
Aí, se você está fora, olhando pra dentro, você olha a partir de outra janela.
Se o olho é a janela da alma, você olha pra alma, a partir de duas janelas. E nunca que chega na alma.
E olhe que é uma jalena cheia de persianas.
E enquanto isso, as músicas de elevador parecem o inverno de Vivaldi.
Fantástico! Vi o link pro teu blog lá no de Gilmara, parabéns mesmo!
Ops, descobri que sou capaz de errar o endereço do meu próprio blog… não tem o “www”, só o http://
Claro que pode! Pergunto o mesmo, se poderia ter seu pote lá na estante do meu blog.
Abraço!
O miolo é a melhor parte!
Já foi adicionado, e será agora uma parada obrigatória para as minhas leituras. São raros esses potes pela internet, e até nas livrarias
Heheh, obrigado
Andei dando uma olhada lá no Sonora Aurora, se você gostou do disco do John Zorn que tem lá, experimenta esse aqui: http://hecatombeintestinal.blogspot.com/2008/02/naked-city-naked-city-1989.html
Sax de primeira!
P.S. Tens orkut ou msn?
Abraço!