Admiro aqueles que sabem focalizar algo na vida. E o faço pela mesma razão pela qual uma criança admira um mágico de circo: simplesmente por não ter noção de como ele consegue fazer o que faz.
O minúsculo estilhaço de mundo posto ao alcance da percepção individual é suficiente para desnortear o espírito de razoável ou generosa sensibilidade. Noutras palavras, o apocalipse da existência – seja ela real ou irreal – é a perdição do homem sensível.
Quando me refiro à sensibilidade, quero significar, além da faculdade de sentir com a alma, a ânsia do conhecimento do que há em volta, daquilo que concorre para o espetáculo da existência dinâmica. Não fosse o mundo tão exagerado em sua multiplicidade, falar em foco seria infinitamente mais fácil.
Acontece que, enquanto uns dedicam a vida a compreender o modo de vida das formigas, outros escavacam tumbas a procura de um passado mudo. No instante em que se fotografa um pássaro raro nos confins de uma floresta, estufam-se as veias do pescoço do engravatado que berra nãoseioquê na bolsa de valores. Ao mesmo tempo em que o som agudo de um violino estremece os miolos de ouvintes atentos, galáxias entrelaçam-se e estraçalham-se para o vazio. Cristais de neve dançam ao encontro do chão, e os dedos da terra que os ampara também seguram o magma. O mar não sabe do computador, que não sabe da semente, que não sabe do número, que não sabe do homem, que não sabe de nada.
Os livros na estante parecem querere falar para contradizerem-se. Eles que são fragmentos de mundo encadernados. Eles que são tantos que não se pode contar numa vida. E diversos de uma maneira que não se pode conceber, quase tanto quanto o complexo de possibilidades do existir. É possível que todos tenham sido escritos por pessoas que estabeleceram um foco na vida, que não se deixaram soterrar pela avalanche do universo traiçoeiro.
É bem provável que a história seja feita pelos que sabem ajustar o foco do pensar e do agir, embora os ‘desfocados’ somente possam ser recriminados se, ao abestalharem-se diante das coisas, limitarem-se a gozar a infertilidade da contemplação.
Vai ver que tudo é, de fato, uma questão de foco, como reza o lema dos incansáveis concurseiros. Vai ver que eu deveria estar estudando direito financeiro, neste exato momento.
bem sei, e ronaldinho tb sabe, que estudar num leva ninguém a nada.
Mas essa falta de foco não é tão incomum. eu percebo um paradoxo fdp com o tanto de informação, em especial na internet. Sou um curioso do kct. Até já falei lah no blog que se alguém chegar pra mim falando de biologia molecular eu vou querer saber tudo quanto possível do assunto. E a Internet me lasca aí: um monte de informação circulando pra todos os lados, e de tanta informação a gente acaba sem absorver nenhuma por completo. Tudo muito fluido nesses tempos. É dificil essa vida de curioso. Meio que dentro de um labirinto, encontrar-se nas multiplicidades é perder-se. Mas sei que tou avançando, pois só se cresce ficando menor.É no meio desse infinito que a gente reconhece nossas limitações.
cheiros, fia
É sempre mais difícil acertar um alvo em movimento, ainda mais um que anda em zigue-zague como a realidade e com uma arma tão precária quanto as que temos.
E quem disse que contemplar é algo ruim? Talvez os que contemplem estejam preparando uma solução melhor do que a que qualquer um já imaginou.
Foco…. Tudo é uma questao de foco! Para um rapaz com isonia devido a uma gripe mal curada encontrar um texto com ideias que ressoavam em sua mente é algo digno de um comentario!
Mas que falta de educacao a minha estranha(o), mal me apresentei…. Sou alguem com problema de “foco”, poderia odiar tanto essa palavra quanto se odeia cabelo no feijao! Como me concentrar em algo quando minha mente é capaz de pensar em mil coisas ao mesmo tempo? Como ser unico e uniforme em um universo tao repleto de possibilidades? Como me encontrar e tracar meu destino se eu posso ter variadas facetas e posso e ser varias coisas?
O fato é nao ha tempo nem nada que me faca ser quem sou, e eu vivo os dias atras desse tal de foco…! E quanto mais o procuro, mais diversidado ele fica… devo ter pulado a fila que distribuia o manual de como viver de forma linear
Bom, parabens pelo texto!!!!!!!!
“Na verdade continuo sobre a mesma condicao, distraindo a verdade e enganando o coracao.”
Ei, boyzinha, tu sabia que tu é engraçada? (Devia trabalhar no Caceta e Planeta…). E eu gosto dessas comparações que tu faz. O cara fica pensando que a ficha não vai cair nunca. Quando cai, a gente fica impressionado com a tua criatividade. Quando não cai, normalmente eu fico intrigado, procurando sentido em todas as ligações possíveis. Isso porque eu sei que estou perdendo uma frase que poderia servir de inspiração mesmo.
Há três anos atrás um colega de faculdade falou, na I SAC, recitando um poema que acabou por ganhar prêmio e tudo, que “estava a desenhar um pássaro e depois conseguiu chegar na complexidade de desenhar um ponto”.
Seu texto me fez lembrar da complexidade do ponto (foco) que nem eu e nem ninguém consegue encontrar, nesses achismos vazios e sem direção que acabam por revelar de alguma maneira a existência humana.
Esse eu adoro e num conheço de quem é:
Eternamente
É ter na mente
Éter na mente
Eternamente
Bjo!
Ah o foco! esse já foi perseguido por mim várias vezes também, mas quando tento trancá-lo ele sempre escapa pela fresta da porta…
passando…
Eu gosto muito das suas idéias, e consigo senti-las com muita proximidade (provavelmente não das formas que vc sente). Mas indo pro campo do estilo, eu prefiro muitíssimo mais quando vc se expressa com simplicidade, é mais certeiro, natural, talvez seja uma forma de eu me identificar mais com o que vc diz, ou, para vc, mais uma sugestão a se pensar.
Vai ver que estou feito esse poema:
“Não é justo Dionísio pedires ao poeta
Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra”
Hilda Hilst
Aproveito pra te dar a dica desse Cd: ode descontínua para flauta e oboé. Já te falei dele um dia.
sentir-pensar-agir. entre um, outro e outro é impossivel manter um foco. imossível pra mim. como vc, admiro quem consegue.
ótimo texto, moça
beijão
“focalizar algo na vida”??
seria o fotógrafo?
rsrs