(Sob)re escombros
Abril 14, 2008 de Clarrissa Yemisi
A consciência do passado é sempre penosa, sejam bons ou ruins os fatos soterrados pela neblina do tempo. Ocorre que, pela simples razão de que ficaram para trás, num recanto empoeirado de saudade ou repúdio, embora cada vez mais longínquos, sussuram, insistentemente, a proximidade do fim. São migalhas de vida que se deixa pelo caminho para sempre ermo, becos em que jamais se pisa uma segunda vez, bosques estéreis que os sopros da memória teimam em revirar e a que emprestam vida sem alma.
É bem verdade que existe uma tal saudade menos dolente que outras, a qual transborda quando não ansiamos por reviver uma vírgula qualquer do passado, mas cujo traçado não nos suscita arrependimento. Se há uma pretensa vertente da saudade que tenha o condão de nos fazer sorrir enquanto indagamos os rastros do tempo é, precisamente, a que acabo de mencionar. No entanto, agonize sob os escombros do destino oportunidade ou ‘felicidade’ perdida, cada segundo é tempo que não volta. É contagem regressiva para o abismo da velhice fria e seca, mesmo que seja em cores e em família. A velhice é um fardo por si própria, mas também pelo peso que as ferragens de uma vida in memoriam depositam nos ombros frágeis e doentes. Não há eufemismo mais agressivo do que “melhor idade”, expressão politicamente correta, mas refutada quando dos finalmentes (finalmentes mesmo). Ou você, caro leitor desocupado, já ouviu alguém dizer por aí que fulano morreu de “melhor idade”? Seria, no mínimo, politicamente incorreto. (rs)
Entrementes, toda conotação negativa só faz sentido quando confrontada com o seu oposto. Visto que, em se tratando de vida, não há frente e verso, mas só frente com pinta de verso (alternativas há em hipótese, mas não de fato), simplesmente não há razões para reclamações ou cara feia. Resta-nos o colo amigo da resignação, da aceitação da vida em toda sua plenitude.
A consciência do passado é, sim, penosa. A do futuro, angustiante ou extasiante. E nós vivemos, precisamente de passado e de futuro. O presente é tempo de sensações irracionais, jamais de impressões, porquanto estas são feixes de luz ou sombra projetadas num outro tempo que paira, em volta, denso e torto. Este presente, tão logo exista para a mente, já é anterior em frações de tempo. Presente, enquanto intervalo, não pode ser presente, posto que, findo o lapso, o início jaz sob a lápide do tempo pretérito. Presente só o é, de fato, pontualmente, e o ponto está para o espaço, em realidade, assim como o presente para o tempo.
Neste mundo de máscaras e desilusões, em que se mostra os dentes perante espelhos enquanto o sapato espreme os dedos, há que se pensar o suficiente, fingir muito e escrever pouco.
Escrever pouco, sobretudo.
Já estava ansiosa para uma nova postagem.
Sabe, já tentei falar sobre o tempo, mas admito que não alcancei, e talvez nunca alcance, essa precisão unida a palavras tão belas. Mas o que realmente me encantou foi o último parágrafo; pra ser mais exata este trecho:
“há que se pensar o suficiente, fingir muito e escrever pouco.”
É exatamente isso que o sistema quer, e é a isso que nos entregamos [cada dia mais]: num mergulho profundo na superficialidade que pode ser que não tenha volta.
Beijos saudosos, flor!
Ou, quem sabe, escrever muito e guardar nas gavetas…
Uma pena (ou não) que um dia elas transbordam.
Excelente texto! de uma lucidez assustadora, especialmente quando se é lido numa manhã de segunda-feira, com uma semana inteira de pouco pensamento pela frente.
Certas vezes eu me dano o fim do texto antes do final. Não sei bem o motivo. Mas acho que isso direciona minha leitura por vezes vaga, ao final já conhecido. Ou quem sabe é apenas uma incontida curiosidade do que está por vir. Facilita minha vida, pois no desfecho está o verdadeiro fim (não término) de um texto. E então eu sei se será proveitoso ou não. É um atitude meio discutível, mas que faço vez por outra.
E assim fiz com esse seu texto. Como se não fosse habitual, me interessei bastante ao ler os últimos dois parágrafos.
Entrementes, parei quando você usou essa palavra. Não gosto de ir a dicionários para saber o que determinada palavra quer dizer. Não quero dizer que não vou, mas faço-o com um puta incômodo. Acredito muito mais na beleza das coisas simples do que uma poética cheia de arabescos. Poderia até ser uma tentativa de justificar minha completa ignorância. Mas lembrei de ter lido um poema de M. Bandeira chamado Poética e vou compartilhá-lo com a srtª:
fonte
” Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. ”
cheiros, mocinha.
REMENDO:
Certas vezes inverto a ordem e me dano a ler o fim de um texto antes do começo.