(Não há riscos de luz no quadro negro da noite. O vento arranha as folhas com frio afago. Bocas retas. Olhares perdidos no tempo híbrido. Há música. Sempre há música à noite, nos dedos do vento ou nos rios do sangue. Como não a ouvissem, resignou-se em sussurro. É hora de silêncio.)
Eu gosto do frio. Parece que a solidão é natural.
Você não sabe o que diz.
Sei o que sinto.
Você não está só.
Você não sabe de nada.
Sei que você é linda.
(Palhas de coqueiro acenam para o vazio. A natureza é morta como não o é o óleo sobre tela. Nuvens esgarçadas empoeiram o horizonte. Não há distâncias. Não há verdade. Não há.)
Sou este grão aqui. Está vendo todos esses outros grãos ao redor dele? Não sabem que este aqui existe. Sequer desconfiam. Há mais estrelas no céu do que grãos de areia na Terra, sabia? Pensar na dimensão do Cosmos me faz sentir ínfima, porém igual e viva.
Grande coisa.
Você é medíocre.
Você é gostosa.
É preciso compreender o mundo e a si para aliviar o fardo da vida sob o efeito analgésico da resignação.
Beije-me.
(Pedras desenhadas sob uns tantos passos mudos. Palavras escarradas por precisão. Não há lugar para elas na garganta estreita. O bafo da maresia ainda tem o mesmo aroma de eternidade.)
Não.
Por que não?
Porque você é meu amigo.
Eu não sou seu amigo.
Eu sou sua amiga.
Troco sua amizade por um pedaço de sua língua.
(Cambalhotas de onda na areia. Pêndulo das águas. No tabuleiro de grãos encharcados, o suicídio em bolhas de espuma. Transcendência. O mar não sabe do vento que o assedia. A onda que precipita não sabe do abismo das almas.)
Se eu beijá-lo terei de olhar para você de maneira diferente.
Por quê?
Porque você o fará e esperará isso de mim.
Quero que você me coma com os olhos.
Prefiro olhá-lo com ternura.
Porra de ternura.
Você não sabe viver.
Agora lascou.
Enxergar o mundo com os meus olhos seria um primeiro motivo para eu lhe dar a língua inteira.
Às almas não é dada a identidade, mas a singularidade inconformada da consciência.
Assim seja.
(O ar que rodopia também assovia uma canção. Talvez um lamento. Ou um presságio. Não palpitam as horas nem é firme o espaço. Aquilo a que se olha não é o que se vê. É tempo de sensações.)
Tremo de frio
Vem mais para perto. Deixe-me abraçá-la
Deite-se aqui ao meu lado. Me dê a sua mão.
Eu gosto de você.
(Uma estrela perfura a tela escura da noite. O traço de luz irrompe veloz e prescinde de pincel. Olhos nos olhos: a centelha das almas, o vermelho do ponto remoto. A noite tem olhos de amêndoa. E hoje suas pálpebras pesam, tal como pesam as nuvens. Estas e a chuva que não tarda. Cataratas celestes.)
Eu também.
…
Me restam os aplausos e a admiração (cada dia maior).
A respiração tropeça e, como disse ao Thiago, um mesclado de frio no estômago com pulsar descompassado, domina meu peito. Gostaria de dizer mais, mas não encontro palavras que definen, como merece, o que acabo de ler. Eu não sei transcrever o que sinto – mesmo antes de findar – ao ler suas palavras, que me inundam de sentimento. Sei dizer que você é linda, porque suas palavras, bem ao pé d’ouvido, me dizem isso.
Un grande bacio, carina!
‘
“Sou este grão aqui. Está vendo todos esses outros grãos ao redor dele? Não sabem que este aqui existe. Sequer desconfiam. Há mais estrelas no céu do que grãos de areia na Terra, sabia? Pensar na dimensão do Cosmos me faz sentir ínfima, porém igual e viva.”
O trecho acima lembrou-me de um poema, que inclusive postei, lá no Delírio, dias trás, de Álvaro de Campos. Apontamento é o nome.
“Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.”
‘
Querida Jhenifer,
Linda mesmo é você, que não sei como suporta o peso da sensibilidade que parece não caber no corpo. Não se importe com definições (autoridades muitas vezes ilegítimas) que elas não tem compromisso com nada. Eu até gosto da inquietação que nos provoca o esforço que se faz para dizer o indizível. E quando o fazemos, parace que as sensações multiplicam-se em nós, como se pudessem pintar e bordar sem serem deduradas, rs.
Grande abraço e obrigada pelas palavras!
Carííííssimo Thiago,
…
Me restam os agradecimentos de coração. Por essas e todas as outras reticências.
Abraço
to com ódio, escrevi um comentario imenso e a porcaria nao gravou! Agora eu só comento pessoalmente!
Lindo texto, Clarrissa!
A força das frases curtas sempre me encantou, e os interlúdios recheados de imagens adicionaram um tempero memorável… Enfim, é um daqueles textos que dão aquela sensação poética do “eu devia ter escrito isso”, a única ‘inveja’ saudável, justamente por converter-se em admiração).
Bravo!
P.S. Adorei o livro! Devorei-o em poucas horas e me fartei de informações… Mal conhecia alguma coisa sobre Balzac.
Abraço Grande!
Muito bonito mesmo, Clarrissa…
Tua alma é muito grande. Grandona mesmo… Dá duas da minha… e ainda sobra.
muuuuito bommmm!!!
mistura tensão e sensibilidade!
fiquei com o coração na mão!
lindoooo demais!
parabéns!
!!!