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Arquivo da categoria ‘Versos livres’

São todos uns
apaixonados:
Os Santos. Os Psicopatas. Os artistas.
E todos vivem gripados
espirrando paixão nas
cruzes, cruzes
nas covas, covas
na alma.
Logo,
o amor existe.
Acontece que somos alérgicos.

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Na frigideira
sapateiam óleos
de todas as órbitas.
Os mais arregalados sonham
sentar o ferrão nos dedos de Atlas e,
de rã,
Morrem pirotecnicamente.
Os menos, fritam devagar
fazendo careta.
Aqui ou acolá fica
uma bolha
ou uma disenteria.
Se calhar, uma cicatriz
ou um câncer.
Daí a diversidade tempero-gutural da humanidade.

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Não cuspa as
costas
do meu silêncio:
É dormente a carapaça.
Cuspa a cara, a cara
mesmo, sem rosto
um cuspe de urtiga,
que eu abro, da língua
as glotes até lamber
fumaça. E mereço.
Ainda que boceje a boca seca
de Justiça
(e saudade)
Nunca me lembro de molhá-la.
Desidratei a sensibilidade.

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Conclave

No céu
a clave sem sol
voa baixo.
Semínimas e máximas
sensações sou eu
na janela
com a cara imprensada
na grade.
Chove tanto, tanto…
Que a orquestra
atonal do meu quintal
tem febre.
Uma poça. Um sapo. Uma palha. Uma bica.
.
.
.
Eu tenho inveja.

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Aberração

Muco de Humanidade
A poesia
Esgarça esborra escorre
E não é líquida.
Não tem carne ou trigo
Rosto. Sobrenome. Aura. Piedade.
Não tem cor nem é negra.
Devora e desonra sem
fome ou verbo.
Não tem verso
Futuro
ou camada de valência.
Apátrida no espaço
Pedra no sapato
do Tempo.
Poesia é o lado impenetrável
De dentro
Oco e surdo
Terrivelmente surdo.
No entanto
É deste Mundo.

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Em pedras duras

Uma flor
refém nasceu
no asfalto.
Ainda há Flores
nesta está
são???

As que rasgam asfalto
E as que
Rasgam-se.
(Com as pétalas?
Com o perfume?)
Diga-lhe que tudo
ainda tem
Hora
e Limite.
Outra
Outra Flor
refeneceu
no asfalto.
Paciência…
(Azar o dela!)
Já é tempo de
Flor
Nascer asfalto.

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O choro

Não é de dor o soluço
da criança.
Antes de revolta.
É que cedo lamentamos a liberdade
natimorta.

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Tète-à-Tète

O tom de voz
Exaltado
Ponte. Agudo.
Ferrão do ódio encravado
Na língua que atira
A palavra.
No olho, cinzas,
Lágrimas velam o alvo
- Luto -
Cotovelos na pálpebra.
Por trás delas
a moleira.
O medo de qualquer coisa.

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Vernissage

Em cada rosto
A cor
Do espanto ensaiado
Em cada cor
O rosto
De pedra o corpo
De plástico
A sala a cela a tela
O céu adiante e
Acima azul
Pálido.
O solene embate
Do risco e do cenho
Franzido.
Em cada olhar
Os Mínimos.
Detalhes da (in)diferença.
Molduras. Paredes. Têmporas.
Arestas iguais.
Em perspectiva: Súditos soberbos
De um pintor cego.

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Tinto suave

No líquido trôpego a luz
oblíqua da lua
encantadora e morta
Entorno o néctar como entorno a vida
gotas em fuga irracionais e cegas
Em goles lentos lambo
a solidão como se buscasse sentido e
não sinto senão a mediocridade de estar sent
indo.
Entornando-me a mim
banho-me e bebo e embriago-me e
acaricio na areia o meu templo de liberdade e
arranco a máscara que [...]

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