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Arquivo da categoria ‘Pois ia..’

Naufrágio

A lua chorou sobre a água
o seu pranto luminoso
qual narciso em desencanto
solitário e vaidoso;
neste, um refletir exíguo
da sua palidez estanque
risca o fluido mar ambíguo
pobre em cor e exuberante
O negro e hídrico tapete
ecoa o falsete lunar
ondas de som e de sal
que se sente ressoar
como um enxágue de cal
a alisar a fina areia
lágrima de lua e nau
rasgando [...]

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Era um extenso
vão
suspenso em sombras
e urros
tensos
de noite branca
Era o meu coração
rouco
e pálido e cálido
e roto
engasgado de luar.

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Labirintite

em volta o lar
birinto
de escoras e cacos
de tudo
em vácuos há
que não sinto
alma de coisa
paira
a espreita
estreita e fria
morta jaz
em tumba de alvas
paredes
tudo
em cada canto é sóbrio
e servo
em pura geometria
como não é
o homem
labirinto de perder-se
sempre
em túneis sem fim que não se tocam

mais.

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O
tempo é
particular.
Genético até seria
se
de fato
houvesse.
Meu
tempo tique sinal só
lu
ço
Meu
extasê é
meu
só mente e
nin
guém sabe deles
nin
guémnin
guém
.
Meu
instantimensurável
comunga eternidade
enquanto
ardo
Meu
átimo é
fóssil
e fenix
Abominável criatura
o relógio
é
como a palavra
Aquele
ditador dos passos
Esta
da alma.

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Diagnóstico

Há poesia
a espernear
em minhas veias
ralas
Porém os outros
claro
os outros
tolos
julgam ser
sangue - imagine
Não vêem eles
como
poderiam saber
serem palavras
pois
a causa insensata
da minha pressão alta.

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Golpe baixo

Desconfie das rosas
tema-as
até
Quantos botões
já me arreganharam as pétalas
cinicamente
vermelhos…

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Alguma profecia

Prepara-te a tempo
de ver
o que haverá
de ser
do poeta que não
é.
De olhos secos
sorriso a espreitar
entre os lábios
poucos
coração convulso
sob o chapéu
forjado em reverência

O poeta é aquele monte
Semblante de neve
alma de lava
em gruta de infinitas
frestas.
Que dorme
em tensa paz
eterno e farto de latente
dor.
(Teus pêlos
de pé
aplaudem).

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Estuário

Morre-se sempre e sem sentir-se
a carne sem saúde
a alma sem sentido
morre-se amiúde
Como se morre a nuvem
a duna
feito onda
numa vertigem
de espuma
Sepulcro e manjedoura
são
num mesmo abraço
os mesmos grãos de espaço
Assim como é
o mar
útero de luz e dia
E tumba e bálsamo
dos rios.

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Tempestade Tropical

Mente tropical
anseios revoltos em tormenta
cria-em-ativa-idade cerebral
tempestade sedenta
de centelha em espiral
fervilha, esquenta
expande
Pensa grande.
TropicalMente
sob trovões e tremores
fervilham pensamentos
o calor, um caça-ventos
alimenta o turbilhão
rebenta o furacão
que se expande
Pensa grande.
GrandeMente tropical
entre a cruz e a serpente
pela linha umbilical
ergue-se imponente
como um Vesúvio, um vulcão
em transe, erupção
idéias em brasa
panacéias, asas.
Tropicalmente grande
quase equatorialmente maior
mentes sanas, insanas, ciganas
Mente grande, inteligente
mente muito, convincente
a verdade [...]

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O beijo

Tu foste todo sombra noite a dentro
pairavas e tragavas e tossias
por entre mãos de fumo tão vazias
é em ti, somente em ti, que me concentro
À grande custa, à força bruta, adentro
a tua fortaleza, carnes frias
e sinto exatamente o que sentias:
em tua alma o amor foge do centro
Como quem quer livrar-se de uma pena
e nesse vão [...]

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