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Arquivo da categoria ‘Pois ia..’

Não me contradigo

Eu nunca me contradigo
eu apenas digo e digo sempre
que tenho vontade
Digo para dentro e para fora
e este dizer de nada me serve
senão para ironizar a consciência
absurda de Ser
Sempre tenho o que dizer
e sempre digo
por isso já não reconheço o timbre
do silêncio e sua paz
de vácuo
Contradizer-se é calar
Calar é não pensar
E não pensar
é ter razão.

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Repito

Tudo já foi dito, dizem
com quantas e outras palavras
Se não foi dito, foi pensado e calado
Há dias de nevoeiro
em que as palavras não estão para primavera
Acontece que às palavras não é dada a verdade
ou a esta, aquelas não saltam

Ou nada disto diga coisa com coisa, pois
a verdade tem cara de palavra
e ambas têm letras e [...]

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Consagração

No altar promíscuo da noite
ergue-se tinta
a hóstia
envergonhada
Do corpus triste
escorre
sal e gozo
em cálice de narciso
No dorso do espelho
o arrepio das águas.

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Naufrágio

A lua chorou sobre a água
o seu pranto luminoso
qual narciso em desencanto
solitário e vaidoso;
neste, um refletir exíguo
da sua palidez estanque
risca o fluido mar ambíguo
pobre em cor e exuberante
O negro e hídrico tapete
ecoa o falsete lunar
ondas de som e de sal
que se sente ressoar
como um enxágue de cal
a alisar a fina areia
lágrima de lua e nau
rasgando [...]

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Vultos de uma noite sem véu

Era um extenso
vão
suspenso em sombras
e urros
tensos
de noite branca
Era o meu coração
rouco
e pálido e cálido
e roto
engasgado de luar.

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Labirintite

em volta o lar
birinto
de escoras e cacos
de tudo
em vácuos há
que não sinto
alma de coisa
paira
a espreita
estreita e fria
morta jaz
em tumba de alvas
paredes
tudo
em cada canto é sóbrio
e servo
em pura geometria
como não é
o homem
labirinto de perder-se
sempre
em túneis sem fim que não se tocam

mais.

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O
tempo é
particular.
Genético até seria
se
de fato
houvesse.
Meu
tempo tique sinal só
lu
ço
Meu
extasê é
meu
só mente e
nin
guém sabe deles
nin
guémnin
guém
.
Meu
instantimensurável
comunga eternidade
enquanto
ardo
Meu
átimo é
fóssil
e fenix
Abominável criatura
o relógio
é
como a palavra
Aquele
ditador dos passos
Esta
da alma.

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Diagnóstico

Há poesia
a espernear
em minhas veias
ralas
Porém os outros
claro
os outros
tolos
julgam ser
sangue - imagine
Não vêem eles
como
poderiam saber
serem palavras
pois
a causa insensata
da minha pressão alta.

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Golpe baixo

Desconfie das rosas
tema-as
até
Quantos botões
já me arreganharam as pétalas
cinicamente
vermelhos…

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Alguma profecia

Prepara-te a tempo
de ver
o que haverá
de ser
do poeta que não
é.
De olhos secos
sorriso a espreitar
entre os lábios
poucos
coração convulso
sob o chapéu
forjado em reverência

O poeta é aquele monte
Semblante de neve
alma de lava
em gruta de infinitas
frestas.
Que dorme
em tensa paz
eterno e farto de latente
dor.

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