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Era um extenso
vão
suspenso em sombras
e urros
tensos
de noite branca
Era o meu coração
rouco
e pálido e cálido
e roto
engasgado de luar.
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Voltar a vista ao passado e contemplar uma vastidão de erros e frivolidades e, ainda, admitir que tudo ou quase tudo seria deliberadamente modificado ao primeiro descuido do estrito e autoritário curso do tempo é atitude digna de admiração…
… e pena.
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Engarrafamento na Epitácio Pessoa:
- Arroto de carro roto em torta rua reta retumba.
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Síndrome da indecisão:
- Relendo rascunho ou remendo ou risco ou rasgo.
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De Cássio Cunha Lima:
- Rá ré ri ró rua.
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Da retratação:
- O rato, retalhado de remorso, reformou a roupa roída do rei de Roma.
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Do velho imundo que escarra na biblioteca setorial:
- Escarrar catarro ralo no ralo é certo. Na rua é errado, porco.
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Podre de rico:
- Roberto* de Ferrari no Retão** é ridículo.
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Slogan anti-estresse:
- Recuse irritações.
* Roberto Santiago, rei do Manaíra Shopping.
** Retão de Manaíra, a rua que termina no mar e que ninguém conhece pelo nome.
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Aquele instante em que o corpo denuncia uma vontade incontrolável de chorar inquieta-me como uma dúvida. É quando cedem as amarras da sobriedade ou estravaza o cálice da razão e a pobre criatura entrega-se ao instinto, como no princípio. A carne palpita, a face lateja e entorta-se numa expressão que prenuncia o desespero. Os olhos acendem, ardem, encharcam-se num estado deplorável de falso alerta. O último fôlego é disperdiçado na peleja inútil para a preservação da mínima serenidade, invólucro de uma pseudo insensibilidade. A alma esforça-se, a todo custo, por permanecer dissimulada, embora esteja certa de que no passo seguinte desfalecerá sobre o joelhos, apática, ao escorrer da primeira lágrima. Despe-se, então, peça a peça, persona a persona, para render-se no instante seguinte de nudez. A sensação é de impotência, de derrota, de não se saber o que fazer, nem o que se transfigura nem o que o contempla.
De minha parte, padeço do mal de não saber consolar. Talvez por um forte sentimento de empatia, que me faz enxergar as coisas de dentro e não de fora. Não consigo dizer palavras fortalecedoras porque muitas delas seriam hipócritas e, ademais, não resolvem nada. Podem criar uma atmosfera aprazível que dê novas cores à situação, mas nada mudam, em geral. Se têm esse poder, todavia, são mais que bem vindas.
Por essas e outras calo-me e há quem me chame “coração gelado”… rs. Mas o meu coração é líquido.
E goteja.
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Confesso que não me sinto a vontade para desejar feliz natal nem aos entes mais próximos. Não se assustem com a heresia, cada vez mais instintiva e presente em meus pensamentos desregrados. Não se trata de negar importância ao evento, que traz, em essência, um válido significado altruísta. Acontece que coisa nenhuma há cuja essência permaneça intacta. Tudo corrompe e é corrompido. Viver, enquanto matéria, é degenerar-se.
O Natal hodierno não passa de uma festa como qualquer outra, em que se inaugura uma roupa nova para exibir-se aos convidados, brinda-se com a família em poses felizes para capturar fotos para o orkut, empanturra-se de Peru com arroz com passas e vinho e queijo do reino, liga-se para alguns gatos pingados de amigos e outros familiares isolados, dá-se presentes quaisquer a qualquer um quase que por obrigação e ainda faz-se cara feia diante do presente ganho no amigo secreto, deseja-se paz, saúde, harmonia e blá, blá, até que chega o dia 25, feriado, e o nome ”feriado” se sobrepõe ao “natal” e tudo já volta à bruta normalidade de sempre, sem votos de felicidades e dias vindouros melhores que o de ontem.
Tudo passa e retorna e passa e retorna e passa novamente e retorna uma outra vez e assim sucessivamente. E vira rotina, habitual, previsível. O bicho homem achou por bem criar datas específicas para se desejar o bem ao outro, o que não é má idéia, não fosse a cara de estranhamento que se entorta diante de nós se desejamos paz, saúde e felicidade para qualquer um num dia qualquer do ano. Assim, deseja-se feliz natal mais como uma formalidade, por educação, como uma palavrinha mágica feito ”bom dia” ou “por favor” do que por vontade própria, simplesmente como quem diz “passe-me a farofa, por favor”. Mais por dever cristão, moral, de gentileza do que como manifestação de amor ao próximo.
Desejar feliz natal constrange-me por isso: porque sinto-me numa situação forjada, num espetáculo de aparências. Prefiro fazer votos de boa ventura no dia de seu ninguém, sem coação de data comemorativa nenhuma, sem compromisso com o calendário. Mesmo assim eu não fujo à regra e desejo “feliz natal” a torto e a direito, embora com o coração na mão. Esforçando-me por ser verdadeira e não cair na trivialidadedos votos automatizados, bem como por sorver toda a sinceridade dos votos alheios.
Aproveitando o ensejo, desejo a você, caríssimo corajoso, que lê este miolo de pote com tanta paciência, um Natal verdadeiro e perene, que rompa os grilhões das datas e cujo espirito paire feito neblina, sempre, para além dos tempos.
Para além do tempo.
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O ser humano, em sua maioria, tem o hábito de assimilar novos conhecimentos sem questionar sua origem, seus meios e métodos de descoberta, sua veracidade. Parece-lhe que as coisas são assim porque sempre foram e pronto e todo mundo sempre soube delas. As leis da física são obvias. A natureza é obvia. “Claro que a Terra Gira em torno do Sol, não vêem”? “A lua? É um satélite natural da Terra, ora essa, que pergunta…” O que não é objeto de dúvia soa banal, evidente, certo. O fato é que, se ousarmos parar para reparar melhor, quase nada é certo, muito menos inquestionável. Além disso, pode-se muito bem dar de cara com o desconhecido e não ser socorrido pelar certezas universais.
Que o digam os astrônomos, astrofísicos, cosmólogos e loucos do gênero (no melhor sentido da expressão). Nenhum asteróide em rota de colisão com a Terra os inquieta mais do que uma incógnita de nome “energia escura”. Simplesmente porque ninguém faz idéia do que seja essa força que, estima-se, compreende a insignificância de 70% de toda a matéria e energia do universo. Não é de hoje que os físicos desconfiam da existência de energia no vácuo, mas quando partem para os cálculos obtêm resultados extraordinariamente elevados, que vão do infinito a zilhões de vezes mais que o necessário (!) inclusive para explicar a incrível força dessa energia, o que levou o Nobel de Física Steven Weinberg a franzir o sobrolho e arrematar: “Deve haver algum erro aí”. Weinberg considera tais resultados nada menos do que “o pior erro na estimativa de uma ordem de magnitude em toda a história da ciência”.
Uma comparação para esclarecer o alvoroço em torno da energia escura: Se lançássemos uma bola ao alto, ao invés dela subir, parar e depois voltar às nossas mãos por força da gravidade, a energia escura faria com que sua velocidade aumentasse sempre e a bola desapareceria no espaço. Essa força seria responsável pela expansão acelerada do universo, segundo dados captados pelo olho do Hubble. Nada poderia ser mais subversivo.
A matéria ou energia escura pode ser o indício de que muito do que se “sabe” sobre o universo seja apenas, como afirma Timothy Ferris, algo equivalente à ponta de um iceberg, que nossa limitadíssima visão não alcança.
Penso que nós também somos feitos, em elevada porcentagem, de energia escura. Que é o espírito, a alma, senão a energia incompreensível que zomba da natureza? Talvez sejamos alma e estejamos corpo. Da mesma forma que, cogita-se, a matéria escura pode ser inerente ao universo. Há quem se aveture a categorizá-la com base em parâmetros diversos, a encaixá-la em moldes, há quem se julgue capaz de explicá-la racional ou irracionalmente. Mas convenhamos, não há leis, regras, limites. Não há fôrma que comporte o disforme.
Atire a primeira pedra quem nunca foi surpeendido pela alma alheia… (ou pela própria, por que não?)
A diferença é que a energia escura parece ser a mesma nos quatro cantos do universo conhecido, vez que desencadeia efeitos semelhantes, ao passo que “a” alma é múltipla, inimitável e mutável.
E isso me leva a pensar em universos incontáveis e díspares, obedientes ou não a leis velhas, novas, eternas… feito almas, talvez interagindo, bem ou mal, talvez isolados… Talvez, talvez…
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Escrevo poesia, simplesmente, porque não caibo em mim. Porque, embora saiba ser o ser humano inatingível em sua essência, uma teimosia atípica não me permite desistir de esticar os braços e rogar às pontas dos dedos que roçem essa essência. Escrevo porque sinto o universo em carne viva. Nuances cambiantes invadem-me por todos os poros d’alma. Múltiplas sensações quadruplicadas de prazer e dor arrebatam-me. Minha sensibilidade ultrapassa os limites do tolerável. E sonho. Degraçadamente sonho.
Escrevo porque sou insaciável. Completamente insaciável. A profusão de possibilidades latentes que pulsam frenéticas em volta me fazem assim. Almejo a perfeição descaradamente, enquanto quase todos a espreitam invejosos e resignam-se previamente pela certeza da impotência. Escrevo porque calo. E assim processo as impressões do exterior sob os afagos da solidão enclausurada. Escrevo porque sou só. Porque sou incompreensível e não compreendo. Como todos o são e o fazem. Escrevo porque amo. E meu amor é grande e maior. Sempre maior.
Escrevo. E isso não basta. Diz-me o que basta e serei paz.
Escrevo.
Porque sou pequena. E não caibo em mim.
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em volta o lar
birinto
de escoras e cacos
de tudo
em vácuos há
que não sinto
alma de coisa
paira
a espreita
estreita e fria
morta jaz
em tumba de alvas
paredes
tudo
em cada canto é sóbrio
e servo
em pura geometria
como não é
o homem
labirinto de perder-se
sempre
em túneis sem fim que não se tocam
já
mais.
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O
tempo é
particular.
Genético até seria
se
de fato
houvesse.
Meu
tempo tique sinal só
lu
ço
Meu
extasê é
meu
só mente e
nin
guém sabe deles
nin
guémnin
guém
.
Meu
instantimensurável
comunga eternidade
enquanto
ardo
Meu
átimo é
fóssil
e fenix
Abominável criatura
o relógio
é
como a palavra
Aquele
ditador dos passos
Esta
da alma.
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