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Entre parêntesis

Amor é fogo que arde
e incinera a si próprio.

Espasmos de meia-noite

Desenvolvi amor pela vida para obstruir as artérias do ódio que nunca tive, mas que bem poderia ter tido, pois, como é sabido, ambos ódio e amor entreolham-se tão próximos que não se pode afirmar onde terminam os cílios de um e começam os do outro. Tusso minha sina num estertorar de tísico e escarro o destino que se diz meu, enquanto arrasta-me por rédeas curtas sobre o asfalto livre. Desfaço-me em curvas e sorrisos sinceros quando renasço para fora, mas nunca retiro-me de todo e, enquanto aceno com a mão tímida, esqueço a outra na segurança do bolso, como toda a gente o faz. E não me importo de ser incompreendida. Não mais.

O bom da vida é haver analgésicos lícitos…

… como o pôr do sol.

De alma para luz.

Que razão têm as estrelas em brilhar para todos e para ninguém a mesma luz? Que razão têm os cometas em rasgarem a eternidade em órbita a perpassar os mundos visíveis e invisíveis? Que razão têm a poeira, os gases e quaisquer outros elementos ou substâncias em combinarem-se para dar forma à qualquer coisa por que clame o acaso? Há razão na engenharia dos anéis de saturno ou na voracidade do buraco negro? Qual a razão do espetáculo das supernovas?

Razão nenhuma. Porque razão é coisa altamente inferior e desnecessária à continuidade do cosmo, e ainda, muitas vezes, prejudicial à interação harmônica entre seres vivos e mortos. Aperfeiçoa-se sem que se possa afirmar sua evolução ou involução, se considerados o bem e o mal que desencadeia por intermédio da única espécie que, acredita-se, a possui. De que me vale conhecer de mim e do alheio duvidosos e raros prós e incontáveis contras? Para entender o mundo e o ser. Sim. E daí? Não há razão em saber do mundo e do ser. Não há razão em saber. Não há razão em ser. A ignorância é a virtude e o conhecimento, o câncer.

Por isso fecho o livro sem marcar a página, apago todas as luzes ao alcance e procuro as estrelas todas, para conversar. De alma para luz, em paz.

Percebo as coisas e tudo é triste. O lençol fino que esperneia no varal úmido, a janela sóbria de olhos entreabertos, o muro amputado que mente ao morno lar sobre o frio inóspito da rua avessa, o mato pouco verde que roga ao vento surdo a incerteza da liberdade para além da terra frágil…

As telhas, entulhadas em certa ordem, só elas são menos tristes, porque, escancaradas ao céu, gozam as estrelas.

Contemplo o mar desde as gotas que me alcançam os pés até a finitude imensuravelmente reta que esbarra no céu. Adiante, erquem-se robustos arrecifes que cruzam a eternidade aos socos de brutas ondas coroadas de branco sal. E assim, a cada rugido violento, sendo já outros e jamais os mesmos, para sempre hostis ao incansável gigante diminuído em liberdade, logram retardar as horas moribundas, ora distraídos a gozar a beleza dos ramalhetes efêmeros de rala espuma em salto, ora a lacrimejar bolhas de tédio em represália à monotonia do ser…

Era um extenso
vão
suspenso em sombras
e urros
tensos
de noite branca

Era o meu coração
rouco
e pálido e cálido
e roto

engasgado de luar.

Voltar a vista ao passado e contemplar uma vastidão de erros e frivolidades e, ainda, admitir que tudo ou quase tudo seria deliberadamente modificado ao primeiro descuido do estrito e autoritário curso do tempo é atitude digna de admiração…

… e pena.

  1. Engarrafamento na Epitácio Pessoa:

    - Arroto de carro roto em torta rua reta retumba.

  2. Síndrome da indecisão:

    - Relendo rascunho ou remendo ou risco ou rasgo.

  3. De Cássio Cunha Lima:

    - Rá ré ri ró rua.

  4. Da retratação:

    - O rato, retalhado de remorso, reformou a roupa roída do rei de Roma.

  5. Do velho imundo que escarra na biblioteca setorial:

    - Escarrar catarro ralo no ralo é certo. Na rua é errado, porco.

  6. Podre de rico:

    - Roberto* de Ferrari no Retão** é ridículo.

  7. Slogan anti-estresse:

    - Recuse irritações.

* Roberto Santiago, rei do Manaíra Shopping.
** Retão de Manaíra, a rua que termina no mar e que ninguém conhece pelo nome.

Aquele instante em que o corpo denuncia uma vontade incontrolável de chorar inquieta-me como uma dúvida. É quando cedem as amarras da sobriedade ou estravaza o cálice da razão e a pobre criatura entrega-se ao instinto, como no princípio. A carne palpita, a face lateja e entorta-se numa expressão que prenuncia o desespero. Os olhos acendem, ardem, encharcam-se num estado deplorável de falso alerta. O último fôlego é disperdiçado na peleja inútil para a preservação da mínima serenidade, invólucro de uma pseudo insensibilidade. A alma esforça-se, a todo custo, por permanecer dissimulada, embora esteja certa de que no passo seguinte desfalecerá sobre o joelhos, apática, ao escorrer da primeira lágrima. Despe-se, então, peça a peça, persona a persona, para render-se no instante seguinte de nudez. A sensação é de impotência, de derrota, de não se saber o que fazer, nem o que se transfigura nem o que o contempla.

De minha parte, padeço do mal de não saber consolar. Talvez por um forte sentimento de empatia, que me faz enxergar as coisas de dentro e não de fora. Não consigo dizer palavras fortalecedoras porque muitas delas seriam hipócritas e, ademais, não resolvem nada. Podem criar uma atmosfera aprazível que dê novas cores à situação, mas nada mudam, em geral. Se têm esse poder, todavia, são mais que bem vindas.

Por essas e outras calo-me e há quem me chame “coração gelado”… rs. Mas o meu coração é líquido.

E goteja.

Confesso que não me sinto a vontade para desejar feliz natal nem aos entes mais próximos. Não se assustem com a heresia, cada vez mais instintiva e presente em meus pensamentos desregrados. Não se trata de negar importância ao evento, que traz, em essência, um válido significado altruísta. Acontece que coisa nenhuma há cuja essência permaneça intacta. Tudo corrompe e é corrompido. Viver, enquanto matéria, é degenerar-se.

O Natal hodierno não passa de uma festa como qualquer outra, em que se inaugura uma roupa nova para exibir-se aos convidados, brinda-se com a família em poses felizes para capturar fotos para o orkut, empanturra-se de Peru com arroz com passas e vinho e queijo do reino, liga-se para alguns gatos pingados de amigos e outros familiares isolados, dá-se presentes quaisquer a qualquer um quase que por obrigação e ainda faz-se cara feia diante do presente ganho no amigo secreto, deseja-se paz, saúde, harmonia e blá, blá, até que chega o dia 25, feriado, e o nome ”feriado” se sobrepõe ao “natal” e tudo já volta à bruta normalidade de sempre, sem votos de felicidades e dias vindouros melhores que o de ontem.

Tudo passa e retorna e passa e retorna e passa novamente e retorna uma outra vez e assim sucessivamente. E vira rotina, habitual, previsível. O bicho homem achou por bem criar datas específicas para se desejar o bem ao outro, o que não é má idéia, não fosse a cara de estranhamento que se entorta diante de nós se desejamos paz, saúde e felicidade para qualquer um num dia qualquer do ano. Assim, deseja-se feliz natal mais como uma formalidade, por educação, como uma palavrinha mágica feito ”bom dia” ou “por favor” do que por vontade própria, simplesmente como quem diz “passe-me a farofa, por favor”. Mais por dever cristão, moral, de gentileza do que como manifestação de amor ao próximo.

Desejar feliz natal constrange-me por isso: porque sinto-me numa situação forjada, num espetáculo de aparências. Prefiro fazer votos de boa ventura no dia de seu ninguém, sem coação de data comemorativa nenhuma, sem compromisso com o calendário. Mesmo assim eu não fujo à regra e desejo “feliz natal” a torto e a direito, embora com o coração na mão. Esforçando-me por ser verdadeira e não cair na trivialidadedos votos automatizados, bem como por sorver toda a sinceridade dos votos alheios.

Aproveitando o ensejo, desejo a você, caríssimo corajoso, que lê este miolo de pote com tanta paciência, um Natal verdadeiro e perene, que rompa os grilhões das datas e cujo espirito paire feito neblina, sempre, para além dos tempos.

 Para além do tempo.

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