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Archive for fevereiro \27\UTC 2008

Entre parêntesis

Amor é fogo que arde
e incinera a si próprio.

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Espasmos de meia-noite

Desenvolvi amor pela vida para obstruir as artérias do ódio que nunca tive, mas que bem poderia ter tido, pois, como é sabido, ambos ódio e amor entreolham-se tão próximos que não se pode afirmar onde terminam os cílios de um e começam os do outro. Tusso minha sina num estertorar de tísico e escarro o destino que se diz meu, enquanto arrasta-me por rédeas curtas sobre o asfalto livre. Desfaço-me em curvas e sorrisos sinceros quando renasço para fora, mas nunca retiro-me de todo e, enquanto aceno com a mão tímida, esqueço a outra na segurança do bolso, como toda a gente o faz. E não me importo de ser incompreendida. Não mais.

O bom da vida é haver analgésicos lícitos…

… como o pôr do sol.

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De alma para luz.

Que razão têm as estrelas em brilhar para todos e para ninguém a mesma luz? Que razão têm os cometas em rasgarem a eternidade em órbita a perpassar os mundos visíveis e invisíveis? Que razão têm a poeira, os gases e quaisquer outros elementos ou substâncias em combinarem-se para dar forma à qualquer coisa por que clame o acaso? Há razão na engenharia dos anéis de saturno ou na voracidade do buraco negro? Qual a razão do espetáculo das supernovas?

Razão nenhuma. Porque razão é coisa altamente inferior e desnecessária à continuidade do cosmo, e ainda, muitas vezes, prejudicial à interação harmônica entre seres vivos e mortos. Aperfeiçoa-se sem que se possa afirmar sua evolução ou involução, se considerados o bem e o mal que desencadeia por intermédio da única espécie que, acredita-se, a possui. De que me vale conhecer de mim e do alheio duvidosos e raros prós e incontáveis contras? Para entender o mundo e o ser. Sim. E daí? Não há razão em saber do mundo e do ser. Não há razão em saber. Não há razão em ser. A ignorância é a virtude e o conhecimento, o câncer.

Por isso fecho o livro sem marcar a página, apago todas as luzes ao alcance e procuro as estrelas todas, para conversar. De alma para luz, em paz.

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Impressões de carnaval

Percebo as coisas e tudo é triste. O lençol fino que esperneia no varal úmido, a janela sóbria de olhos entreabertos, o muro amputado que mente ao morno lar sobre o frio inóspito da rua avessa, o mato pouco verde que roga ao vento surdo a incerteza da liberdade para além da terra frágil…

As telhas, entulhadas em certa ordem, só elas são menos tristes, porque, escancaradas ao céu, gozam as estrelas.

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À tarde, sonâmbula.

Contemplo o mar desde as gotas que me alcançam os pés até a finitude imensuravelmente reta que esbarra no céu. Adiante, erquem-se robustos arrecifes que cruzam a eternidade aos socos de brutas ondas coroadas de branco sal. E assim, a cada rugido violento, sendo já outros e jamais os mesmos, para sempre hostis ao incansável gigante diminuído em liberdade, logram retardar as horas moribundas, ora distraídos a gozar a beleza dos ramalhetes efêmeros de rala espuma em salto, ora a lacrimejar bolhas de tédio em represália à monotonia do ser…

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