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Archive for março \20\UTC 2008

Admiro aqueles que sabem focalizar algo na vida. E o faço pela mesma razão pela qual uma criança admira um mágico de circo: simplesmente por não ter noção de como ele consegue fazer o que faz.

O minúsculo estilhaço de mundo posto ao alcance da percepção individual é suficiente para desnortear o espírito de razoável ou generosa sensibilidade. Noutras palavras, o apocalipse da existência – seja ela real ou irreal – é a perdição do homem sensível.

Quando me refiro à sensibilidade, quero significar, além da faculdade de sentir com a alma, a ânsia do conhecimento do que há em volta, daquilo que concorre para o espetáculo da existência dinâmica. Não fosse o mundo tão exagerado em sua multiplicidade, falar em foco seria infinitamente mais fácil.

Acontece que, enquanto uns dedicam a vida a compreender o modo de vida das formigas, outros escavacam tumbas a procura de um passado mudo. No instante em que se fotografa um pássaro raro nos confins de uma floresta, estufam-se as veias do pescoço do engravatado que berra nãoseioquê na bolsa de valores. Ao mesmo tempo em que o som agudo de um violino estremece os miolos de ouvintes atentos, galáxias entrelaçam-se e estraçalham-se para o vazio. Cristais de neve dançam ao encontro do chão, e os dedos da terra que os ampara também seguram o magma. O mar não sabe do computador, que não sabe da semente, que não sabe do número, que não sabe do homem, que não sabe de nada.

Os livros na estante parecem querere falar para contradizerem-se. Eles que são fragmentos de mundo encadernados. Eles que são tantos que não se pode contar numa vida. E diversos de uma maneira que não se pode conceber, quase tanto quanto o complexo de possibilidades do existir. É possível que todos tenham sido escritos por pessoas que estabeleceram um foco na vida, que não se deixaram soterrar pela avalanche do universo traiçoeiro.

É bem provável que a história seja feita pelos que sabem ajustar o foco do pensar e do agir, embora os ‘desfocados’ somente possam ser recriminados se, ao abestalharem-se diante das coisas, limitarem-se a gozar a infertilidade da contemplação.

Vai ver que tudo é, de fato, uma questão de foco, como reza o lema dos incansáveis concurseiros. Vai ver que eu deveria estar estudando direito financeiro, neste exato momento.

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O amor somente cogita em erguer bandeira branca na implosão do desespero. Quando até o silêncio discorda e contradiz.

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À espera do elevador

Poucas coisas na vida são tão desconcertantes quanto um arranhar-se de olhares desconhecidos. Sempre dura o suficiente para nos fazer sentir vulneráveis, inseguros e com todos os defeitos em evidência, ao mesmo tempo em que indagamos o outro no escuro. Nestas circunstâncias age-se como em resposta a uma afronta, a um desrespeito, em retaliação a um atentado à privacidade que se quer incólume.

Com os olhos engatilhados e munidos de preconceitos, descarregamos impressões forjadas que, não raro, têm o poder de apontar rumos de relações em potencial. Acontece que o primeiro embate de olhares é sempre um erguer e soprar de cartas simultâneo. Incômodo e perturbador, atua em sentido contrário ao intuito original, comumente repelindo ou adiando aproximações.

A ameaça do olhar seria menos aterrorizante não fosse a absoluta ignorância da arma que se empunha ou diante da qual costuma-se fraquejar. Soubessem, as mentes que se espreitam, o que sussuram as sinapses, seus corpos não se poriam em estado de tenso e fingido alerta; os olhos, incautos, não apelariam a alvos aleatórios e a sensação de desconforto seria incomensuravelmente menor, porque estariam a par da situação.

Não haveria graça alguma, em suma.

Uma troca de olhares é exercício de sensibilidade. E o mistério do outro, sua perdição.

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