Feeds:
Posts
Comentários

Archive for abril \28\UTC 2008

Naufrágio

A lua chorou sobre a água
o seu pranto luminoso
qual narciso em desencanto
solitário e vaidoso;
neste, um refletir exíguo
da sua palidez estanque
risca o fluido mar ambíguo
pobre em cor e exuberante

O negro e hídrico tapete
ecoa o falsete lunar
ondas de som e de sal
que se sente ressoar
como um enxágue de cal
a alisar a fina areia
lágrima de lua e nau
rasgando o mar que clareia

Clarrissa Yemisi / Matheus Gondim
30/03/2008

Read Full Post »

(Sob)re escombros

A consciência do passado é sempre penosa, sejam bons ou ruins os fatos soterrados pela neblina do tempo. Ocorre que, pela simples razão de que ficaram para trás, num recanto empoeirado de saudade ou repúdio, embora cada vez mais longínquos, sussuram, insistentemente, a proximidade do fim. São migalhas de vida que se deixa pelo caminho para sempre ermo, becos em que jamais se pisa uma segunda vez, bosques estéreis que os sopros da memória teimam em revirar e a que emprestam vida sem alma.

É bem verdade que existe uma tal saudade menos dolente que outras, a qual transborda quando não ansiamos por reviver uma vírgula qualquer do passado, mas cujo traçado não nos suscita arrependimento. Se há uma pretensa vertente da saudade que tenha o condão de nos fazer sorrir enquanto indagamos os rastros do tempo é, precisamente, a que acabo de mencionar. No entanto, agonize sob os escombros do destino oportunidade ou ‘felicidade’ perdida, cada segundo é tempo que não volta. É contagem regressiva para o abismo da velhice fria e seca, mesmo que seja em cores e em família. A velhice é um fardo por si própria, mas também pelo peso que as ferragens de uma vida in memoriam depositam nos ombros frágeis e doentes. Não há eufemismo mais agressivo do que “melhor idade”, expressão politicamente correta, mas refutada quando dos finalmentes (finalmentes mesmo). Ou você, caro leitor desocupado, já ouviu alguém dizer por aí que fulano morreu de “melhor idade”? Seria, no mínimo, politicamente incorreto. (rs)

Entrementes, toda conotação negativa só faz sentido quando confrontada com o seu oposto. Visto que, em se tratando de vida, não há frente e verso, mas só frente com pinta de verso (alternativas há em hipótese, mas não de fato), simplesmente não há razões para reclamações ou cara feia. Resta-nos o colo amigo da resignação, da aceitação da vida em toda sua plenitude.

A consciência do passado é, sim, penosa. A do futuro, angustiante ou extasiante. E nós vivemos, precisamente de passado e de futuro. O presente é tempo de sensações irracionais, jamais de impressões, porquanto estas são feixes de luz ou sombra projetadas num outro tempo que paira, em volta, denso e torto. Este presente, tão logo exista para a mente, já é anterior em frações de tempo. Presente, enquanto intervalo, não pode ser presente, posto que, findo o lapso, o início jaz sob a lápide do tempo pretérito. Presente só o é, de fato, pontualmente, e o ponto está para o espaço, em realidade, assim como o presente para o tempo.

Neste mundo de máscaras e desilusões, em que se mostra os dentes perante espelhos enquanto o sapato espreme os dedos, há que se pensar o suficiente, fingir muito e escrever pouco.

Escrever pouco, sobretudo.

Read Full Post »