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Archive for maio \28\UTC 2008

Amizade é para sempre, como a História. Ambos existem enquanto houver memória. Enquanto houver passado que a alimente, numa relação de simbiose, ou que lhe crave os dentes de parasita. Amigos estão para a amizade com os fatos para a História. A presença daqueles faz resplandecer a amizade, tanto quanto a reprodução dos fatos confere nitidez à História. Interessante é que vão-se os fatos, mas ela permanece. Vão-se os amigos e resta a amizade. Eis o que me intriga.

É evidente que o ‘fazer’ histórico não se confunde com o ‘contar’ uma história. Fazer história é cavalgar o tempo, sem rédeas. Ou ser cavalgado por ele, sem destino. Tem-se História a cada trote, a cada movimento, a cada inspiração do homem, a cada expiração do tempo. Uma vez consumado o ato, gravado na lápide do tempo que se fez poeira ou rascunhado no borrão do porvir e sendo tudo isso entornado nas duas mãos da memória, pode-se afirmar que há História.

O mesmo acontece com a amizade. Uma vez ‘amizade’ (não digo ‘verdadeira’ porque dispenso redundâncias), sua imortalidade depende da capacidade de ser chama. A sensação de amizade, a sua lembrança, a paz que ela nos proporciona, equanto acesa na memória, é perene, tanto na forma de diálogo e convivência, quanto na forma de recordação, emoldurada em saudade.

É verdade que, assim como enxergamos a História com olhos adaptáveis à luz da realidade, o que nos faz contemplá-la de maneira diferente conforme a época em que se vive, também a transformação que sofremos, ininterrupamente, modifica a imagem do amigo e da amizade. Tal distaciamento, normalmente, tem o condão de atenuar possíveis aspectos negativos, ao passo que contribui para que tanto a História quanto a amizade tornem-se cada vez mais rarefeitas, menos intensas, menos presentes, embora ainda presente.

Prova disso é sentir o coração soluçar, apertado, ao abrir uma das portinholas do armário do cérebro e rever o filme do passado compartilhado. É, com uma das mãos, protejer a chama que persiste e, com a outra, aparar as gotas do coração que se faz líquido pelo calor. Eu amparo uma fogeira com todos os membros, com todo o cuidado, com toda a discrição do mundo.

E por ninguém ter nada com isso, tome-se o dito por não dito.

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