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Archive for outubro \29\UTC 2008

Era uma vez

Cantar, sempre cantar, erguer a voz!
Dar credibilidade a uma mentira
Fingir que não existe Amor nem Ira
Depois dá-los à luz num grito atroz!

Cantar, venha cantar comigo, a sós
Chorar a eternidade que eu traíra
Quando Deus, negligente, errou a mira
E deixou que eu roubasse a Luz aos sóis!

Não queira me apagar o fogo à língua
E deixá-la entortar-se inútil, à mingua
Condenada à tortura da mudez

Corre de mim se eu mordo os teus sentidos
Ou rasga tu teus olhos e os ouvidos
Que o silêncio que eu fui “era uma vez…”!

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Uma pergunta

Pobre descrente, vem ser Só comigo!
Sossega um lábio noutro, entreaberto
Ergue com as tuas mãos teu raro abrigo
Fecha os olhos e crê que estás coberto!

Brinca com o medo, vem morrer mais perto
De mim que hoje eu sou teu melhor amigo
Não por ser mais sincero ou mais antigo
Mas por também ter sede e ser Deserto!

Somos dois animais que acreditamos
Ser Humanos, iguais e ejaculamos
Noutro corpo outro instinto diferente…

Meu Deus, por que ser só tendo desejo
De transcender a carne que arde o beijo
Se não posso ser Alma sendo gente?!

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Transfiguração

Não venha me dizer que enlouqueci
de dedo em riste e farpas na garganta
Se o meu não ter nem ser Limite espanta
é que há cegos que só sentem a si

Se estou louca, que importa? Renasci!
Já fui Anjo, Princesa, já fui Santa
e fui a flor que às vezes o amor planta
hoje espalho-me em cacos de Rubi!

E de tanto ser Nomes eu sou Tudo
que diz o olho a espreitar por trás do escudo
– esta sombra em que esbarra a minha mão…

Mas se queres que eu seja um nome apenas
sou a que tu não vês e que condenas
por não teres na boca o coração!

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Ultimato

Amor, não diz quem és, mostra-me a cara
deita, em meu colo, a flor de uma alegria
beija, em meu rosto, a lágrima vazia
deste mal que não tem nome e nem sara

Ó, grande Amor, não sê meu, só repara
neste enlaçe de lança e fantasia
franze, na testa, o nojo que eu franzia
velando as esperanças que eu plantara!

Cegue-me o teu fulgor! Queima-me inteira!
Se tens qualquer coragem prova, agora
que só tu tens valor neste Universo!

Não há nada na vida que eu mais queira
do que te dar meus olhos! Faz-se aurora!
Ou não te faço nunca mais um verso!

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Insanidade

Conviver: viver com ou viver sem?
Cem vezes solitário em meio a tudo!
Tanto estrondo de amor no peito mudo…
Descubro a multidão, não há ninguém!

Tanto dizer-se “não, talvez, porém”
tanto estreitar o sentimento agudo!
Eu, que convivo só, canto e me iludo
Somente a voz do verso me faz bem…

Quanta mentira, quanto jogo vão
Quantas unhas e tapas, quantos dentes!
tosca coreografia no salão…

Quantos amantes e convalescentes!
Todos estrangulando o coração
nesta louca irmandade de dementes!

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Soneto de esterilidade

Sei que tu vais embora e eu também
somos, antes de tudo, movimento
e eu, igualmente a ti, não me contento
em ser, dos outros, dádiva e refém

Ah, quanta vida existe sempre além
desta breve centelha de momento
e ser humano é ser o mais sedento
de tanto querer tudo nada tem

Anda, que o tempo adianta e segue à frente
rasga o riscar em versos da minh’alma
– este pássaro errante e dependente

Leva, somente, o beijo desta calma
falso semear de campos sem semente
brisa que range os dentes e me acalma

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Tinto suave

No líquido trôpego a luz
oblíqua da lua
encantadora e morta

Entorno o néctar como entorno a vida
gotas em fuga
irracionais e cegas

Em goles lentos lambo
a solidão como se buscasse sentido e
não sinto senão a mediocridade de estar sent
indo.

Entornando-me a mim
banho-me e bebo e embriago-me e
acaricio na areia o meu templo de liberdade e
arranco a máscara que teimam
em pregar-me à cara e

Compreendedo
absurda e firme:

Nunca fui mais sóbria.

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