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Archive for março \31\UTC 2009

Casa da mãe Joana

Meu pai se chama Aurélio (o pai dos burros)
Mamãe se chama Joana e a casa dela
Abriga Deus e o mundo (eu moro nela)
Os dois vendem churrasco, eu vendo churros.

Quando eu nasci, mamãe rasgou-se em urros
Ficou doente, gorda e amarela
Depois meus dez irmãos ‘cabaram’ co’ela
Coitada… ainda aguenta chifre e murros.

Vovó, de fralda, vive numa cama…
Meus seis pirralhos vivem se esgoelando
Quando não, tão com fome ou tão cagando.

O corno mais inútil é meu marido
Banguelo, leso, liso, enfim, fudido!
Mas da cambada toda é o que reclama!

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Único

Entorno em tua boca o mesmo Amor
Que em outros lábios secos eu verti
Pois pode o Bem Amado ser quem for
Amor não tem medida e nem croquis

Ao afirmar amar-te eu não menti
E o fiz sem protocolo e sem pudor
Meu coração, no entanto, é um amador…
Sangrou outrora e agora espirra em ti

Amar é andar descalça e de alma nua…
Porém, é antes verbo intransitivo
Não há quem complemente e o não exclua

E sendo um só o Amor eu não me privo
De amá-lo – inteiro – em ti, mas não ser tua
– É teu o Amor enquanto houver motivo.

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O choro

Não é de dor o soluço
da criança.

Antes de revolta.

É que cedo lamentamos a liberdade
natimorta.

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Tète-à-Tète

O tom de voz
Exaltado
Ponte. Agudo.

Ferrão do ódio encravado
Na língua que atira
A palavra.

No olho, cinzas,
Lágrimas velam o alvo
– Luto –
Cotovelos na pálpebra.

Por trás delas
a moleira.

O medo de qualquer coisa.

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Vernissage

Em cada rosto
A cor
Do espanto ensaiado

Em cada cor
O rosto
De pedra o corpo
De plástico
A sala a cela a tela
O céu adiante e
Acima azul
Pálido.

O solene embate
Do risco e do cenho
Franzido.

Em cada olhar
Os Mínimos.
Detalhes da (in)diferença.

Molduras. Paredes. Têmporas.
Arestas iguais.

Em perspectiva: Súditos soberbos
De um pintor cego.

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Do tempo não escrito

À parte as contradições que digo e sou, deliberadamente, arrisco algumas afirmações que julgo (esta é a palavra) verdadeiras. Uma delas é inexistência do silêncio, em que acredito, hoje, mais do que nunca. “Ouve, não há silêncio, que lugar o há?”… Percebo que a consciência não comporta o silêncio, porquanto não há percepção sem interpretação e não há interpretação muda. Esta mudez, por óbvio, não diz respeito à ausência de voz, mas de qualquer modo de expressão, de dizer, com gestos, palavras, arrepios, ou com os neurônios, apenas, ao dizer para si.

Penso nisso ao fazer as contas do tempo em que não abri este pote. Revejo-o, neste instante, retiro-o da prateleira, abro-o finalmente. Interessante… não há mofo. Cada palavras ainda retumba, ainda sangra o mesmo sangue vermelho vivo. Não há coágulo. Também não há o que chamamos ‘passado’ dentro dele. Tudo permanece, agora, como o fez e fará por sobre os ponteiros caxias das horas.

(Fora de propósito, o que se escreve com o punho da alma não se lê sem os olhos dela)

“Outra vez te revejo”… e penso que não há necessidade de palavra. Há o capricho de tê-la nos braços, na ponta da língua e do lápis. Há o status de se dizer ‘amigo das palavras’, velho amigo, algo como… “brincamos juntos quando eu era menino, roubamos frutas e atiramos pedras nos passarinhos”… Há uma tentativa de se justificar, de redimir, de se corrigir, de se explicar perante o eterno e inevitável Tribuanal da Inquisição: o outro.

Escrever frustra porque reduz. Embora possamos dizer muito, até mais do que se pretendia e explanar e destrinchar e esmuiçar e criar e conceituar e ensinar, cada assertiva conduz a uma nova dúvida, graças a Deus.

O tempo não escrito, no entanto, a palavra não dita, o pensamento disperso e nebuloso… são infinitos. Não têm limites porque sujeitam-se à (re)criação constante. É obra viva, latente na memória, enquanto houver memória. São múltiplos porque não têm nome e por não o terem são, inegavelmente, ‘mais’.

Meu tempo não escrito não cabe neste pote. (Meu tempo não escrito não cabe.)

Nem cabe a mim guardá-lo, retê-lo, aprisioná-lo. Confortam-me as lembranças, suas cores e sílabas cambiantes. Conforta-me a possibilidade do retorno ao lugar certo, à hora certa, à pessoa certa. Um passado que não passa. Eis o meu tempo não escrito.

A palavra ensinou-me que há vida depois dela e o Amor, dito com os olhos e com o corpo, confirmou-me.

Por isso sou-lhe infinitamente grata e, não obstante o que quer eu diga – perdoa-me, palavra querida! -, não a abandono por nada desse mundo.

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Era tarde, a sarjeta, o chip, o disco
A incerteza da espera, o gole quente
O calor derretendo corpo e mente
Só uma dúvida: Eu volto, agora, ou fico?

Lá vêm eles! Até que enfim… Entramos.
Um churrasco moderno, em vez de espeto
Tem fumaça, tem pizza… (onde eu me meto…)
Até som de garrafa nós tiramos!

Teve ainda o momento dicionário
A palavra da vez: concomitante.
Em seguida uma outra: ubiquidade.

Teve o dardo! Esquecer? Só sendo otário!
A conversa dos timbres logo adiante…
A comédia, o silêncio… Ah, que saudade…!

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