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Archive for maio \30\UTC 2009

A velha mão esquerda da cidade
Com os dedos macerados pelo rio
Não sente, em suas linhas, o assobio
De um trêm que desafia a eternidade

Cavalga sobre os trilhos, muito lento
Sem perceber se está distante ou perto
Seguindo a exatidão de um rumo certo
A um’outra plataforma do relento

Em baforadas quentes de fumaça
Esvai-se a luz de um tempo, a juventude
E embora tudo o quanto é vivo mude
Há qualquer coisa ainda que não passa…

Na contramão do rio, o canoeiro
Após enrodilhar o seu anzól
Desliza sobre as águas em que o sol
De manhãzinha, vem beijar primeiro

As aves, na sangria do horizonte,
Que vai fechando o olho azul lazúli,
Extasiadas fazem que tremule
As suas asas brancas sobre o monte

Quais lápides de pedra, os casarões
Erguidos sobre o pó de seus senhores
Carregam o epitáfio dos amores
E os ecos de patéticas canções

Ao som dos madrigais e serenatas
Dançavam lábios, cordas, corações
Mas hoje, ao chacoalharem os vagões,
Ouvimos gargalharem as baratas!

Varandas neoclássicas roídas
Altar de moças puras – as mais belas
Engasgam-se de folhas amarelas
Que mais parecem cascas de ferida

Nas taças, refratada, a luz do vinho
Encandeava o azul das nobres raças
Mas, nesta noite, brinda, pelas praças,
Aos tragos da cachaça, alguém sozinho.

Ruína… sobrevives, inconsciente
O abraço do garrote é tua pena
Não sentes mais os dentes da gangrena
Roerem teu concreto e tua gente.

Eu venho, aqui, olhar a tua morte
Mas teu destino é estranho a nós, mortais:
Estar com a morte e não morrer jamais
Teus muros podres servem-lhe de forte

Em Tempo algum tu foste minha casa
Meus pés nunca pisaram teu sobrado
No entanto, tu te arrastas a meu lado
Inválida, qual pássaro sem asa

E eu amo o teu semblante entristecido
Teu hálito de amante, a tua paz
E o meu amor estúpido não faz
Nem mesmo para mim nenhum sentido

Mas quando a morte, enfim, mudar de idéia
E abocanhar teu último tijolo
Não regarei teu túmulo qual tolo
A lamentar a sorte de Pompéia…

Tu cantarás pra mim, cidade velha!
E sobre os espigões de João Pessoa
Ecoas, Parahyba que te escreves
Das Neves, Frederica, Filipéia…

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Flor de lis

Eu nunca reparei no teu vestido
Tampouco no colar que te estrangula
Mas hoje tu me vens chamar de mula
Mostrando o teu cabelo colorido

No entanto, meu amor, não faz sentido
Atribuir-me tal palavra chula
Pois ante a minha sede e a minha gula
De ti, jamais teria percebido.

Pro seu governo (ou para seu deleite)
Os homens têm visão de raio X
(Tu vais à vaca e eles vêm com o leite)

E tudo o que te enfeita só lhes diz
Do instante em que teu corpo nu se deite
Com as pétalas lembrando a flor de lis…

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Sem título

Desci, da estante, as folhas amarelas
Deitei a vista escura sobre elas
Nas páginas, os rastros de um desejo
Eu vi… e os meus dois olhos salivaram!
Na língua destas águas navegaram
Olhando os arrecifes do sobejo…

Espasmos de uma vida entrecortada
Por sombra e cor – dois lados de uma espada –
Descansam nestas folhas esquecidas
E, quase embalsamados pelo fungo,
Resistem no ruído do resmungo
Amordaçado em letras tão relidas

Alguma voz percorre os meus ouvidos
Despindo o corpo frio dos tempos idos
Num leito adormecido da memória
E enquanto eu guardo os olhos ressucito
A luz contaminada de Infinito
Que um dia repousou na minha história.

Miragem tão efêmera é a vida…
Não há, no mundo, coisa parecida
Nem há juiz que inove na sentença.
A morte, este confuso teorema,
Persegue o poeta e os passos do poema!
E faz que o mundo inteiro lhe pertença!

Saber, exatamente, como e quando
Teremos de jantar a sós e a mando
De quem ela prepara o seu banquete,
Não sei, nem quero ter esta certeza!
Eu quero que ela tarde a vir à mesa!
Mas que eu, por fim, sacie a sua sede!

Que venha, quando houver de vir, que venha!
E faça emudecer com o que convenha…
Mas peço, impiedosa mãe, apenas
Que Vossa Senhoria não condene
O verso à escuridão e ao frio perene
Reserve a quem escreve as duas penas!

A compaixão da morte – ou a paixão? –
Talvez permita a reencarnação
Da vida em corpo e alma de poesia
Eu sinto, em minhas mãos, estremecer
O amor de uma paixão que eu vi morrer
De tanto amar os corpos que escrevia

Amar uma palavra, uma pessoa…
Que diferença faz se a gente entoa
E escuta, sempre, a voz do próprio canto?
No afã de decifrarmos sons distintos
Curvamo-nos ao cetro dos instintos
E é nosso e mudo o Amor e o seu encanto!

De tanto olhar e ver o mesmo umbigo
Deixei de traduzir o que eu não digo
Mas tudo o que eu não digo tem voz alta!
E enquanto envelhecer a Humanidade
Os ecos vão buscar a eternidade e
Ninguém há de sentir a minha falta!

Calei todas as páginas e agora
Meu pensamento bêbado demora
A recordar o gosto da leitura
Não sei qual personagem segue viva…
Não sei quais olhos cospem a saliva
Que a pálpebra, sem forças, não segura…

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Aberração

Muco de Humanidade
A poesia
Esgarça esborra escorre
E não é líquida.

Não tem carne ou trigo
Rosto. Sobrenome. Aura. Piedade.
Não tem cor nem é negra.

Devora e desonra sem
fome ou verbo.

Não tem verso
Futuro
ou camada de valência.

Apátrida no espaço
Pedra no sapato
do Tempo.

Poesia é o lado impenetrável
De dentro
Oco e surdo
Terrivelmente surdo.

No entanto
É deste Mundo.

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