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Archive for the ‘Faniquito’ Category

Do tempo não escrito

À parte as contradições que digo e sou, deliberadamente, arrisco algumas afirmações que julgo (esta é a palavra) verdadeiras. Uma delas é inexistência do silêncio, em que acredito, hoje, mais do que nunca. “Ouve, não há silêncio, que lugar o há?”… Percebo que a consciência não comporta o silêncio, porquanto não há percepção sem interpretação e não há interpretação muda. Esta mudez, por óbvio, não diz respeito à ausência de voz, mas de qualquer modo de expressão, de dizer, com gestos, palavras, arrepios, ou com os neurônios, apenas, ao dizer para si.

Penso nisso ao fazer as contas do tempo em que não abri este pote. Revejo-o, neste instante, retiro-o da prateleira, abro-o finalmente. Interessante… não há mofo. Cada palavras ainda retumba, ainda sangra o mesmo sangue vermelho vivo. Não há coágulo. Também não há o que chamamos ‘passado’ dentro dele. Tudo permanece, agora, como o fez e fará por sobre os ponteiros caxias das horas.

(Fora de propósito, o que se escreve com o punho da alma não se lê sem os olhos dela)

“Outra vez te revejo”… e penso que não há necessidade de palavra. Há o capricho de tê-la nos braços, na ponta da língua e do lápis. Há o status de se dizer ‘amigo das palavras’, velho amigo, algo como… “brincamos juntos quando eu era menino, roubamos frutas e atiramos pedras nos passarinhos”… Há uma tentativa de se justificar, de redimir, de se corrigir, de se explicar perante o eterno e inevitável Tribuanal da Inquisição: o outro.

Escrever frustra porque reduz. Embora possamos dizer muito, até mais do que se pretendia e explanar e destrinchar e esmuiçar e criar e conceituar e ensinar, cada assertiva conduz a uma nova dúvida, graças a Deus.

O tempo não escrito, no entanto, a palavra não dita, o pensamento disperso e nebuloso… são infinitos. Não têm limites porque sujeitam-se à (re)criação constante. É obra viva, latente na memória, enquanto houver memória. São múltiplos porque não têm nome e por não o terem são, inegavelmente, ‘mais’.

Meu tempo não escrito não cabe neste pote. (Meu tempo não escrito não cabe.)

Nem cabe a mim guardá-lo, retê-lo, aprisioná-lo. Confortam-me as lembranças, suas cores e sílabas cambiantes. Conforta-me a possibilidade do retorno ao lugar certo, à hora certa, à pessoa certa. Um passado que não passa. Eis o meu tempo não escrito.

A palavra ensinou-me que há vida depois dela e o Amor, dito com os olhos e com o corpo, confirmou-me.

Por isso sou-lhe infinitamente grata e, não obstante o que quer eu diga – perdoa-me, palavra querida! -, não a abandono por nada desse mundo.

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(Não há riscos de luz no quadro negro da noite. O vento arranha as folhas com frio afago. Bocas retas. Olhares perdidos no tempo híbrido. Há música. Sempre há música à noite, nos dedos do vento ou nos rios do sangue. Como não a ouvissem, resignou-se em sussurro. É hora de silêncio.)

Eu gosto do frio. Parece que a solidão é natural.

Você não sabe o que diz.

Sei o que sinto.

Você não está só.

Você não sabe de nada.

Sei que você é linda.

(Palhas de coqueiro acenam para o vazio. A natureza é morta como não o é o óleo sobre tela. Nuvens esgarçadas empoeiram o horizonte. Não há distâncias. Não há verdade. Não há.)

Sou este grão aqui. Está vendo todos esses outros grãos ao redor dele? Não sabem que este aqui existe. Sequer desconfiam. Há mais estrelas no céu do que grãos de areia na Terra, sabia? Pensar na dimensão do Cosmos me faz sentir ínfima, porém igual e viva.

Grande coisa.

Você é medíocre.

Você é gostosa.

É preciso compreender o mundo e a si para aliviar o fardo da vida sob o efeito analgésico da resignação.

Beije-me.

(Pedras desenhadas sob uns tantos passos mudos. Palavras escarradas por precisão. Não há lugar para elas na garganta estreita. O bafo da maresia ainda tem o mesmo aroma de eternidade.)

Não.

Por que não?

Porque você é meu amigo.

Eu não sou seu amigo.

Eu sou sua amiga.

Troco sua amizade por um pedaço de sua língua.

(Cambalhotas de onda na areia. Pêndulo das águas. No tabuleiro de grãos encharcados, o suicídio em bolhas de espuma. Transcendência. O mar não sabe do vento que o assedia. A onda que precipita não sabe do abismo das almas.)

Se eu beijá-lo terei de olhar para você de maneira diferente.

Por quê?

Porque você o fará e esperará isso de mim.

Quero que você me coma com os olhos.

Prefiro olhá-lo com ternura.

Porra de ternura.

Você não sabe viver.

Agora lascou.

Enxergar o mundo com os meus olhos seria um primeiro motivo para eu lhe dar a língua inteira.

Às almas não é dada a identidade, mas a singularidade inconformada da consciência.

Assim seja.

(O ar que rodopia também assovia uma canção. Talvez um lamento. Ou um presságio. Não palpitam as horas nem é firme o espaço. Aquilo a que se olha não é o que se vê. É tempo de sensações.)

Tremo de frio

Vem mais para perto. Deixe-me abraçá-la

Deite-se aqui ao meu lado. Me dê a sua mão.

Eu gosto de você.

(Uma estrela perfura a tela escura da noite. O traço de luz irrompe veloz e prescinde de pincel. Olhos nos olhos: a centelha das almas, o vermelho do ponto remoto. A noite tem olhos de amêndoa. E hoje suas pálpebras pesam, tal como pesam as nuvens. Estas e a chuva que não tarda. Cataratas celestes.)

Eu também.

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Amizade é para sempre, como a História. Ambos existem enquanto houver memória. Enquanto houver passado que a alimente, numa relação de simbiose, ou que lhe crave os dentes de parasita. Amigos estão para a amizade com os fatos para a História. A presença daqueles faz resplandecer a amizade, tanto quanto a reprodução dos fatos confere nitidez à História. Interessante é que vão-se os fatos, mas ela permanece. Vão-se os amigos e resta a amizade. Eis o que me intriga.

É evidente que o ‘fazer’ histórico não se confunde com o ‘contar’ uma história. Fazer história é cavalgar o tempo, sem rédeas. Ou ser cavalgado por ele, sem destino. Tem-se História a cada trote, a cada movimento, a cada inspiração do homem, a cada expiração do tempo. Uma vez consumado o ato, gravado na lápide do tempo que se fez poeira ou rascunhado no borrão do porvir e sendo tudo isso entornado nas duas mãos da memória, pode-se afirmar que há História.

O mesmo acontece com a amizade. Uma vez ‘amizade’ (não digo ‘verdadeira’ porque dispenso redundâncias), sua imortalidade depende da capacidade de ser chama. A sensação de amizade, a sua lembrança, a paz que ela nos proporciona, equanto acesa na memória, é perene, tanto na forma de diálogo e convivência, quanto na forma de recordação, emoldurada em saudade.

É verdade que, assim como enxergamos a História com olhos adaptáveis à luz da realidade, o que nos faz contemplá-la de maneira diferente conforme a época em que se vive, também a transformação que sofremos, ininterrupamente, modifica a imagem do amigo e da amizade. Tal distaciamento, normalmente, tem o condão de atenuar possíveis aspectos negativos, ao passo que contribui para que tanto a História quanto a amizade tornem-se cada vez mais rarefeitas, menos intensas, menos presentes, embora ainda presente.

Prova disso é sentir o coração soluçar, apertado, ao abrir uma das portinholas do armário do cérebro e rever o filme do passado compartilhado. É, com uma das mãos, protejer a chama que persiste e, com a outra, aparar as gotas do coração que se faz líquido pelo calor. Eu amparo uma fogeira com todos os membros, com todo o cuidado, com toda a discrição do mundo.

E por ninguém ter nada com isso, tome-se o dito por não dito.

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(Sob)re escombros

A consciência do passado é sempre penosa, sejam bons ou ruins os fatos soterrados pela neblina do tempo. Ocorre que, pela simples razão de que ficaram para trás, num recanto empoeirado de saudade ou repúdio, embora cada vez mais longínquos, sussuram, insistentemente, a proximidade do fim. São migalhas de vida que se deixa pelo caminho para sempre ermo, becos em que jamais se pisa uma segunda vez, bosques estéreis que os sopros da memória teimam em revirar e a que emprestam vida sem alma.

É bem verdade que existe uma tal saudade menos dolente que outras, a qual transborda quando não ansiamos por reviver uma vírgula qualquer do passado, mas cujo traçado não nos suscita arrependimento. Se há uma pretensa vertente da saudade que tenha o condão de nos fazer sorrir enquanto indagamos os rastros do tempo é, precisamente, a que acabo de mencionar. No entanto, agonize sob os escombros do destino oportunidade ou ‘felicidade’ perdida, cada segundo é tempo que não volta. É contagem regressiva para o abismo da velhice fria e seca, mesmo que seja em cores e em família. A velhice é um fardo por si própria, mas também pelo peso que as ferragens de uma vida in memoriam depositam nos ombros frágeis e doentes. Não há eufemismo mais agressivo do que “melhor idade”, expressão politicamente correta, mas refutada quando dos finalmentes (finalmentes mesmo). Ou você, caro leitor desocupado, já ouviu alguém dizer por aí que fulano morreu de “melhor idade”? Seria, no mínimo, politicamente incorreto. (rs)

Entrementes, toda conotação negativa só faz sentido quando confrontada com o seu oposto. Visto que, em se tratando de vida, não há frente e verso, mas só frente com pinta de verso (alternativas há em hipótese, mas não de fato), simplesmente não há razões para reclamações ou cara feia. Resta-nos o colo amigo da resignação, da aceitação da vida em toda sua plenitude.

A consciência do passado é, sim, penosa. A do futuro, angustiante ou extasiante. E nós vivemos, precisamente de passado e de futuro. O presente é tempo de sensações irracionais, jamais de impressões, porquanto estas são feixes de luz ou sombra projetadas num outro tempo que paira, em volta, denso e torto. Este presente, tão logo exista para a mente, já é anterior em frações de tempo. Presente, enquanto intervalo, não pode ser presente, posto que, findo o lapso, o início jaz sob a lápide do tempo pretérito. Presente só o é, de fato, pontualmente, e o ponto está para o espaço, em realidade, assim como o presente para o tempo.

Neste mundo de máscaras e desilusões, em que se mostra os dentes perante espelhos enquanto o sapato espreme os dedos, há que se pensar o suficiente, fingir muito e escrever pouco.

Escrever pouco, sobretudo.

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Admiro aqueles que sabem focalizar algo na vida. E o faço pela mesma razão pela qual uma criança admira um mágico de circo: simplesmente por não ter noção de como ele consegue fazer o que faz.

O minúsculo estilhaço de mundo posto ao alcance da percepção individual é suficiente para desnortear o espírito de razoável ou generosa sensibilidade. Noutras palavras, o apocalipse da existência – seja ela real ou irreal – é a perdição do homem sensível.

Quando me refiro à sensibilidade, quero significar, além da faculdade de sentir com a alma, a ânsia do conhecimento do que há em volta, daquilo que concorre para o espetáculo da existência dinâmica. Não fosse o mundo tão exagerado em sua multiplicidade, falar em foco seria infinitamente mais fácil.

Acontece que, enquanto uns dedicam a vida a compreender o modo de vida das formigas, outros escavacam tumbas a procura de um passado mudo. No instante em que se fotografa um pássaro raro nos confins de uma floresta, estufam-se as veias do pescoço do engravatado que berra nãoseioquê na bolsa de valores. Ao mesmo tempo em que o som agudo de um violino estremece os miolos de ouvintes atentos, galáxias entrelaçam-se e estraçalham-se para o vazio. Cristais de neve dançam ao encontro do chão, e os dedos da terra que os ampara também seguram o magma. O mar não sabe do computador, que não sabe da semente, que não sabe do número, que não sabe do homem, que não sabe de nada.

Os livros na estante parecem querere falar para contradizerem-se. Eles que são fragmentos de mundo encadernados. Eles que são tantos que não se pode contar numa vida. E diversos de uma maneira que não se pode conceber, quase tanto quanto o complexo de possibilidades do existir. É possível que todos tenham sido escritos por pessoas que estabeleceram um foco na vida, que não se deixaram soterrar pela avalanche do universo traiçoeiro.

É bem provável que a história seja feita pelos que sabem ajustar o foco do pensar e do agir, embora os ‘desfocados’ somente possam ser recriminados se, ao abestalharem-se diante das coisas, limitarem-se a gozar a infertilidade da contemplação.

Vai ver que tudo é, de fato, uma questão de foco, como reza o lema dos incansáveis concurseiros. Vai ver que eu deveria estar estudando direito financeiro, neste exato momento.

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O amor somente cogita em erguer bandeira branca na implosão do desespero. Quando até o silêncio discorda e contradiz.

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À espera do elevador

Poucas coisas na vida são tão desconcertantes quanto um arranhar-se de olhares desconhecidos. Sempre dura o suficiente para nos fazer sentir vulneráveis, inseguros e com todos os defeitos em evidência, ao mesmo tempo em que indagamos o outro no escuro. Nestas circunstâncias age-se como em resposta a uma afronta, a um desrespeito, em retaliação a um atentado à privacidade que se quer incólume.

Com os olhos engatilhados e munidos de preconceitos, descarregamos impressões forjadas que, não raro, têm o poder de apontar rumos de relações em potencial. Acontece que o primeiro embate de olhares é sempre um erguer e soprar de cartas simultâneo. Incômodo e perturbador, atua em sentido contrário ao intuito original, comumente repelindo ou adiando aproximações.

A ameaça do olhar seria menos aterrorizante não fosse a absoluta ignorância da arma que se empunha ou diante da qual costuma-se fraquejar. Soubessem, as mentes que se espreitam, o que sussuram as sinapses, seus corpos não se poriam em estado de tenso e fingido alerta; os olhos, incautos, não apelariam a alvos aleatórios e a sensação de desconforto seria incomensuravelmente menor, porque estariam a par da situação.

Não haveria graça alguma, em suma.

Uma troca de olhares é exercício de sensibilidade. E o mistério do outro, sua perdição.

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