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Archive for the ‘Décimas’ Category

Flores de junho

Saber cantar em cores o destino
acarinhando a face branca e muda
da tela, enamorada que, desnuda,
entrega-se ao pincel em dasatino
é como ver, com os olhos de um menino,
as curvas da verdade que seduz
sorver dos céus os tantos tons de azuis
flagrar num traço a própria vida inteira

sentir, do amor, a febre traiçoeira
mais que domar a luz é ser a Luz!

Ceder aos devaneios a que induz
o peito embriagado de miragens
é como ser amante das imagens
despir-se, ambos, alma e corpos nus
não há milagre nem sinal da cruz

que possa desfazer o encantamento
pois antes mesmo até do nascimento
um Deus qualquer soprou-lhe ao pé do ouvido
– Vais ser, das cores, servo enlouquecido!

E não disse mais nada, o avarento!

Depois, talvez, por arrependimento
lavou-lhe os olhos numa fonte pura
num gesto breve ungiu-lhe em sacramento
beijando, o criador, a criatura
e deu-lhe, em mãos, a gema da loucura
aquela que seria, eternamente
a chama que erguerias sempre a frente
a revelar as cores da verdade
jamais vistas à luz da realidade

mas sob os véus da criação da mente!

Dos loucos, que seria se somente
de lágrimas ou sangue fosse o pranto?
Se o desalento, a dor e o desencanto
não fossem declamados de repente
num verso ou numa tela reticente…
forjados ao calar das madrugadas
para nascer com o dia, de mãos dadas
dizendo o que a palavra não dizia
assoviando a voz da melodia

de todas as verdades censuradas!

Das palmas das manhãs ensolaradas
os sonhos escorregam devagar
e logo formam rios e vão ao mar
beijar divagações em vão sonhadas

À noite, em ondas brancas, ressacadas
aqueles sonhos todos vão e vêm
livrando-se das águas qual refém
acorrentado à linha do horizonte
os sonhos querem retornar à fonte

para mostrar a força que eles têm!

E quando coloridos vão além
de todas as fronteiras da matéria
tingindo o tempo como lhe convém

nos quadros da memória deletérea
e nessa galeria a linha etérea
das formas que não falam da razão
expressam tudo aquilo que a visão
não pode perceber só com o olhar

dos olhos que não sabem desatar
as vendas do mistério da paixão

De que vale querer saber se são
sinceras as mentiras desse enredo
se os lábios no sorriso do segredo
de tão perto já beijam o coração
e inflamam qual fogueira de São João
queimando o tronco frágil da alegria
que as almas cogitavam que seria
eterna feito as trilhas do Universo
mas como herança brilha a luz do verso
acesa enquanto incendeia a poesia

Meu Deus eu não sei bem o que faria
se um dia não se ouvisse os gritos d’arte
se o lúcido estivesse em toda a parte
rasgando as vestes claras da utopia
era da vez que o louco enlouquecia
buscando cor na face embrutecida
sentindo imensa dor jamais sentida
no peito o frio silêncio do pavio
talvez erguesse a vida por um fio
nas brumas da ilusão adormecida

O certo é que se vive de partida
desejando saciar o insaciável
sendo cotidiano, tributável

sem nunca dar a luta por vencida
e enquanto o tempo atrasa a despedida
de todos os caprichos do querer
eu faço a flor do instante enrubescer
por não poder plantar dentro de mim
semente imprerecível de um jardim
que tão somente em sonho pode haver!

Eu penso que o sentido de viver
que se procura é pura e simplesmente
o fato de o sentido estar ausente
das garras da ganância do saber
Quem dera ter o Tempo em meu poder
e dedilhar as cordas dessa horas
cantando a eternidade das demoras
na marcha rumo ao chão do precipício
dos ramos da virtude colher vício
regado à cor da lágrima que choras.

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Às flores

A penumbra da noite agonizante
como o vulto que encobre o rosto triste
pelo medo da morte, em vão, insiste
em pesar sobre o mar o último instante
mas se deixa vencer, não obstante
espalhar ao redor melancolia
e sangrar, como sempre acontecia
gotas mornas em tons alaranjados
salpicando-as em nós que ali, cansados
contemplamos, sem voz, a dor do dia.

Dor de mãe, dor de parto, de alegria
de se ver renascer o que era morto
não se sabe se é ruim ou reconforto
dar a vida ao que já não mais sofria
mas se a vida é bem quista, todavia
seja dura, penosa, amarga, louca
e estremece até mesmo a voz mais rouca
pelo instinto animal de permanência
é porque, contrariando a consciência
quer-se ter alegria, embora pouca.

Não importa se é simples ou barroca
desde que seja imensa, exagerada
mas se for rara, parca, quase nada
já não se há de dizer que a vida é oca..
mil palavras me vêm, agora, à boca
mas somente o silêncio tem razão
pois não traz, em essência, imperfeição
e nos faz perceber como é bastante
ver o parto do dia exuberante
para as flores.. não queira explicação.

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