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Archive for the ‘Quadras’ Category

A velha mão esquerda da cidade
Com os dedos macerados pelo rio
Não sente, em suas linhas, o assobio
De um trêm que desafia a eternidade

Cavalga sobre os trilhos, muito lento
Sem perceber se está distante ou perto
Seguindo a exatidão de um rumo certo
A um’outra plataforma do relento

Em baforadas quentes de fumaça
Esvai-se a luz de um tempo, a juventude
E embora tudo o quanto é vivo mude
Há qualquer coisa ainda que não passa…

Na contramão do rio, o canoeiro
Após enrodilhar o seu anzól
Desliza sobre as águas em que o sol
De manhãzinha, vem beijar primeiro

As aves, na sangria do horizonte,
Que vai fechando o olho azul lazúli,
Extasiadas fazem que tremule
As suas asas brancas sobre o monte

Quais lápides de pedra, os casarões
Erguidos sobre o pó de seus senhores
Carregam o epitáfio dos amores
E os ecos de patéticas canções

Ao som dos madrigais e serenatas
Dançavam lábios, cordas, corações
Mas hoje, ao chacoalharem os vagões,
Ouvimos gargalharem as baratas!

Varandas neoclássicas roídas
Altar de moças puras – as mais belas
Engasgam-se de folhas amarelas
Que mais parecem cascas de ferida

Nas taças, refratada, a luz do vinho
Encandeava o azul das nobres raças
Mas, nesta noite, brinda, pelas praças,
Aos tragos da cachaça, alguém sozinho.

Ruína… sobrevives, inconsciente
O abraço do garrote é tua pena
Não sentes mais os dentes da gangrena
Roerem teu concreto e tua gente.

Eu venho, aqui, olhar a tua morte
Mas teu destino é estranho a nós, mortais:
Estar com a morte e não morrer jamais
Teus muros podres servem-lhe de forte

Em Tempo algum tu foste minha casa
Meus pés nunca pisaram teu sobrado
No entanto, tu te arrastas a meu lado
Inválida, qual pássaro sem asa

E eu amo o teu semblante entristecido
Teu hálito de amante, a tua paz
E o meu amor estúpido não faz
Nem mesmo para mim nenhum sentido

Mas quando a morte, enfim, mudar de idéia
E abocanhar teu último tijolo
Não regarei teu túmulo qual tolo
A lamentar a sorte de Pompéia…

Tu cantarás pra mim, cidade velha!
E sobre os espigões de João Pessoa
Ecoas, Parahyba que te escreves
Das Neves, Frederica, Filipéia…

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