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Archive for the ‘Sextilhas’ Category

Sem título

Desci, da estante, as folhas amarelas
Deitei a vista escura sobre elas
Nas páginas, os rastros de um desejo
Eu vi… e os meus dois olhos salivaram!
Na língua destas águas navegaram
Olhando os arrecifes do sobejo…

Espasmos de uma vida entrecortada
Por sombra e cor – dois lados de uma espada –
Descansam nestas folhas esquecidas
E, quase embalsamados pelo fungo,
Resistem no ruído do resmungo
Amordaçado em letras tão relidas

Alguma voz percorre os meus ouvidos
Despindo o corpo frio dos tempos idos
Num leito adormecido da memória
E enquanto eu guardo os olhos ressucito
A luz contaminada de Infinito
Que um dia repousou na minha história.

Miragem tão efêmera é a vida…
Não há, no mundo, coisa parecida
Nem há juiz que inove na sentença.
A morte, este confuso teorema,
Persegue o poeta e os passos do poema!
E faz que o mundo inteiro lhe pertença!

Saber, exatamente, como e quando
Teremos de jantar a sós e a mando
De quem ela prepara o seu banquete,
Não sei, nem quero ter esta certeza!
Eu quero que ela tarde a vir à mesa!
Mas que eu, por fim, sacie a sua sede!

Que venha, quando houver de vir, que venha!
E faça emudecer com o que convenha…
Mas peço, impiedosa mãe, apenas
Que Vossa Senhoria não condene
O verso à escuridão e ao frio perene
Reserve a quem escreve as duas penas!

A compaixão da morte – ou a paixão? –
Talvez permita a reencarnação
Da vida em corpo e alma de poesia
Eu sinto, em minhas mãos, estremecer
O amor de uma paixão que eu vi morrer
De tanto amar os corpos que escrevia

Amar uma palavra, uma pessoa…
Que diferença faz se a gente entoa
E escuta, sempre, a voz do próprio canto?
No afã de decifrarmos sons distintos
Curvamo-nos ao cetro dos instintos
E é nosso e mudo o Amor e o seu encanto!

De tanto olhar e ver o mesmo umbigo
Deixei de traduzir o que eu não digo
Mas tudo o que eu não digo tem voz alta!
E enquanto envelhecer a Humanidade
Os ecos vão buscar a eternidade e
Ninguém há de sentir a minha falta!

Calei todas as páginas e agora
Meu pensamento bêbado demora
A recordar o gosto da leitura
Não sei qual personagem segue viva…
Não sei quais olhos cospem a saliva
Que a pálpebra, sem forças, não segura…

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