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Não cuspa as
costas
do meu silêncio:

É dormente a carapaça.

Cuspa a cara, a cara
mesmo, sem rosto
um cuspe de urtiga,
que eu abro, da língua
as glotes até lamber
fumaça. E mereço.

Ainda que boceje a boca seca
de Justiça
(e saudade)

Nunca me lembro de molhá-la.

Desidratei a sensibilidade.

Conclave

No céu
a clave sem sol
voa baixo.

Semínimas e máximas
sensações sou eu
na janela
com a cara imprensada
na grade.

Chove tanto, tanto…

Que a orquestra
atonal do meu quintal
tem febre.

Uma poça. Um sapo. Uma palha. Uma bica.

.
.
.

Eu tenho inveja.

A velha mão esquerda da cidade
Com os dedos macerados pelo rio
Não sente, em suas linhas, o assobio
De um trêm que desafia a eternidade

Cavalga sobre os trilhos, muito lento
Sem perceber se está distante ou perto
Seguindo a exatidão de um rumo certo
A um’outra plataforma do relento

Em baforadas quentes de fumaça
Esvai-se a luz de um tempo, a juventude
E embora tudo o quanto é vivo mude
Há qualquer coisa ainda que não passa…

Na contramão do rio, o canoeiro
Após enrodilhar o seu anzól
Desliza sobre as águas em que o sol
De manhãzinha, vem beijar primeiro

As aves, na sangria do horizonte,
Que vai fechando o olho azul lazúli,
Extasiadas fazem que tremule
As suas asas brancas sobre o monte

Quais lápides de pedra, os casarões
Erguidos sobre o pó de seus senhores
Carregam o epitáfio dos amores
E os ecos de patéticas canções

Ao som dos madrigais e serenatas
Dançavam lábios, cordas, corações
Mas hoje, ao chacoalharem os vagões,
Ouvimos gargalharem as baratas!

Varandas neoclássicas roídas
Altar de moças puras – as mais belas
Engasgam-se de folhas amarelas
Que mais parecem cascas de ferida

Nas taças, refratada, a luz do vinho
Encandeava o azul das nobres raças
Mas, nesta noite, brinda, pelas praças,
Aos tragos da cachaça, alguém sozinho.

Ruína… sobrevives, inconsciente
O abraço do garrote é tua pena
Não sentes mais os dentes da gangrena
Roerem teu concreto e tua gente.

Eu venho, aqui, olhar a tua morte
Mas teu destino é estranho a nós, mortais:
Estar com a morte e não morrer jamais
Teus muros podres servem-lhe de forte

Em Tempo algum tu foste minha casa
Meus pés nunca pisaram teu sobrado
No entanto, tu te arrastas a meu lado
Inválida, qual pássaro sem asa

E eu amo o teu semblante entristecido
Teu hálito de amante, a tua paz
E o meu amor estúpido não faz
Nem mesmo para mim nenhum sentido

Mas quando a morte, enfim, mudar de idéia
E abocanhar teu último tijolo
Não regarei teu túmulo qual tolo
A lamentar a sorte de Pompéia…

Tu cantarás pra mim, cidade velha!
E sobre os espigões de João Pessoa
Ecoas, Parahyba que te escreves
Das Neves, Frederica, Filipéia…

Flor de lis

Eu nunca reparei no teu vestido
Tampouco no colar que te estrangula
Mas hoje tu me vens chamar de mula
Mostrando o teu cabelo colorido

No entanto, meu amor, não faz sentido
Atribuir-me tal palavra chula
Pois ante a minha sede e a minha gula
De ti, jamais teria percebido.

Pro seu governo (ou para seu deleite)
Os homens têm visão de raio X
(Tu vais à vaca e eles vêm com o leite)

E tudo o que te enfeita só lhes diz
Do instante em que teu corpo nu se deite
Com as pétalas lembrando a flor de lis…

Sem título

Desci, da estante, as folhas amarelas
Deitei a vista escura sobre elas
Nas páginas, os rastros de um desejo
Eu vi… e os meus dois olhos salivaram!
Na língua destas águas navegaram
Olhando os arrecifes do sobejo…

Espasmos de uma vida entrecortada
Por sombra e cor – dois lados de uma espada –
Descansam nestas folhas esquecidas
E, quase embalsamados pelo fungo,
Resistem no ruído do resmungo
Amordaçado em letras tão relidas

Alguma voz percorre os meus ouvidos
Despindo o corpo frio dos tempos idos
Num leito adormecido da memória
E enquanto eu guardo os olhos ressucito
A luz contaminada de Infinito
Que um dia repousou na minha história.

Miragem tão efêmera é a vida…
Não há, no mundo, coisa parecida
Nem há juiz que inove na sentença.
A morte, este confuso teorema,
Persegue o poeta e os passos do poema!
E faz que o mundo inteiro lhe pertença!

Saber, exatamente, como e quando
Teremos de jantar a sós e a mando
De quem ela prepara o seu banquete,
Não sei, nem quero ter esta certeza!
Eu quero que ela tarde a vir à mesa!
Mas que eu, por fim, sacie a sua sede!

Que venha, quando houver de vir, que venha!
E faça emudecer com o que convenha…
Mas peço, impiedosa mãe, apenas
Que Vossa Senhoria não condene
O verso à escuridão e ao frio perene
Reserve a quem escreve as duas penas!

A compaixão da morte – ou a paixão? –
Talvez permita a reencarnação
Da vida em corpo e alma de poesia
Eu sinto, em minhas mãos, estremecer
O amor de uma paixão que eu vi morrer
De tanto amar os corpos que escrevia

Amar uma palavra, uma pessoa…
Que diferença faz se a gente entoa
E escuta, sempre, a voz do próprio canto?
No afã de decifrarmos sons distintos
Curvamo-nos ao cetro dos instintos
E é nosso e mudo o Amor e o seu encanto!

De tanto olhar e ver o mesmo umbigo
Deixei de traduzir o que eu não digo
Mas tudo o que eu não digo tem voz alta!
E enquanto envelhecer a Humanidade
Os ecos vão buscar a eternidade e
Ninguém há de sentir a minha falta!

Calei todas as páginas e agora
Meu pensamento bêbado demora
A recordar o gosto da leitura
Não sei qual personagem segue viva…
Não sei quais olhos cospem a saliva
Que a pálpebra, sem forças, não segura…

Aberração

Muco de Humanidade
A poesia
Esgarça esborra escorre
E não é líquida.

Não tem carne ou trigo
Rosto. Sobrenome. Aura. Piedade.
Não tem cor nem é negra.

Devora e desonra sem
fome ou verbo.

Não tem verso
Futuro
ou camada de valência.

Apátrida no espaço
Pedra no sapato
do Tempo.

Poesia é o lado impenetrável
De dentro
Oco e surdo
Terrivelmente surdo.

No entanto
É deste Mundo.

Em pedras duras

Uma flor
refém nasceu
no asfalto.

Ainda há Flores
nesta está
são???

As que rasgam asfalto
E as que
Rasgam-se.

(Com as pétalas?
Com o perfume?)

Diga-lhe que tudo
ainda tem
Hora
e Limite.

Outra

Outra Flor
refeneceu
no asfalto.

Paciência…

(Azar o dela!)

Já é tempo de
Flor

Nascer asfalto.